Há um excesso de claridade no mundo. Luzes fortes, cintilantes, atordoantes, se derramam pelas fendas do real. Uma claridade mortiça, que se assemelha à cegueira, envolve a realidade. Claridade não é o mesmo que clareza. A clareza fala da transparência e da limpidez. Já a claridade remete ao brilho intenso, talvez excessivo, ao fulgor que, enquanto ilumina, cega. Em nosso mundo devastado pelo resplendor e pela cintilação, é a luz, e não a escuridão, que nos impede de ver. Uma luz que é mais um clarão, que é um golpe. Ainda assim, permanecemos com a ilusão de que é na luz que “vemos tudo”. É o contrário: no turbilhão de imagens vibrantes, a realidade, em vez de se revelar, nos foge. Desaparece.
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