Três das maiores bolsas de valores da região da Ásia-Pacífico estão reagindo contra empresas listadas que, na prática, atuam como veículos de acumulação de criptomoedas disfarçados.
A Hong Kong Exchanges & Clearing (HKEX) contestou os planos de pelo menos cinco companhias que tentam mudar seu foco para estratégias de tesouraria baseadas em ativos digitais, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. A justificativa é que essas propostas violam regras que proíbem grandes participações em ativos líquidos. Nenhuma dessas empresas, até o momento, recebeu aprovação. Iniciativas semelhantes, conhecidas como Tesourarias de Ativos Digitais (DATs), também enfrentam resistência na Índia e na Austrália.
Essa oposição ocorre em um momento em que tanto as criptomoedas quanto as empresas listadas que as acumulam estão sob pressão crescente, o que ameaça uma alta dos ativos digitais que predominou na maior parte de 2025.
O bitcoin (BTC) atingiu a máxima histórica de US$ 126.251 em 6 de outubro e acumula valorização de 18% no ano. O rali foi impulsionado, em grande parte, pela proliferação de companhias dedicadas a estocar o token. O modelo, criado pela Strategy, empresa de Michael Saylor avaliada em US$ 70 bilhões, inspirou centenas de imitadores ao redor do mundo. Essas empresas geralmente apresentam valorizações superiores ao valor de suas reservas de cripto, evidenciando a forte demanda dos investidores.
Nos últimos meses, porém, as compras das DATs diminuíram e suas ações caíram, acompanhando a forte correção do mercado de criptomoedas. Segundo um relatório recente da 10X Research, de Singapura, investidores de varejo já perderam cerca de US$ 17 bilhões em negociações com essas companhias.
Nos mercados da Ásia-Pacífico, as restrições das bolsas locais ameaçam paralisar completamente os planos desses acumuladores de criptoativos.
As ações da Boyaa Interactive International, uma das maiores empresas de tesouraria de bitcoin de Hong Kong, caíram até 3,9% nesta quarta-feira (22), desempenho pior que o do índice Hang Seng. Outras companhias com exposição a cripto, como DL Holdings e Ourgame International, também recuaram.
“As regras de listagem determinam diretamente o quão rápido e de forma limpa um modelo de tesouraria de ativos digitais pode operar”, disse Rick Maeda, analista de cripto da Presto Research, em Tóquio. Regras “previsíveis e acolhedoras” atraem capital e aumentam a confiança dos investidores, enquanto ambientes mais rígidos dificultam a execução das DATs, acrescentou.
Em Hong Kong, se uma empresa listada tiver a maior parte de seus ativos em dinheiro ou investimentos de curto prazo, ela é classificada como uma “empresa de caixa” e pode ter suas ações suspensas, conforme as regras da bolsa. O objetivo é impedir que empresas de fachada usem seu status de listadas apenas para captar recursos.
Para as empresas que buscam acumular criptomoedas, a aprovação depende de demonstrarem que a aquisição desses ativos faz parte essencial de suas operações, explicou Simon Hawkins, sócio do escritório Latham & Watkins.
Atualmente, é proibido que companhias listadas em Hong Kong se tornem exclusivamente acumuladoras de criptoativos, segundo fontes ouvidas.
Um porta-voz da HKEX se recusou a comentar casos individuais, mas afirmou que o arcabouço regulatório “garante que os negócios e operações de todas as empresas listadas ou candidatas à listagem sejam viáveis, sustentáveis e substanciais”.
Em episódio semelhante, a Bolsa de Bombaim (BSE) rejeitou, no mês passado, o pedido da Jetking Infotrain para listar ações oriundas de uma emissão preferencial. A empresa havia declarado que investiria parte dos recursos em cripto. Ela recorreu da decisão, conforme registro oficial. Tanto a BSE quanto a Jetking não comentaram.
Na Austrália, a ASX proíbe que companhias listadas mantenham 50% ou mais de seus balanços em caixa ou ativos equivalentes. Essa regra torna “praticamente impossível” adotar um modelo de tesouraria cripto, segundo Steve Orenstein, CEO da Locate Technologies. A empresa de software, que passou a investir em bitcoin, está transferindo sua listagem para a Nova Zelândia, onde a bolsa NZX aceita hospedar DATs.
Segundo um porta-voz da ASX, empresas que desejam investir em bitcoin ou ether (ETH) “são incentivadas a estruturar sua oferta como um fundo negociado em bolsa (ETF)”. Caso contrário, “é improvável que sejam consideradas adequadas para listagem oficial”.
A ASX afirmou não proibir estratégias de tesouraria cripto, mas alertou que possíveis conflitos com as regras de listagem precisam ser cuidadosamente administrados.
O Japão é uma exceção notável na região. Lá, é comum que empresas públicas mantenham grandes reservas de caixa, e as regras de listagem permitem maior liberdade para as DATs.
“Uma vez listada, se a empresa fizer as divulgações adequadas, por exemplo, informar que está comprando bitcoin, seria difícil concluir de imediato que essas ações são inaceitáveis”, disse Hiromi Yamaji, CEO do Japan Exchange Group, em coletiva no dia 26 de setembro.
O país abriga 14 empresas listadas compradoras de bitcoin, o maior número da Ásia, segundo o site BitcoinTreasuries.net. Entre elas está a Metaplanet, do setor hoteleiro, uma das primeiras a adotar o modelo de tesouraria e que hoje possui cerca de US$ 3,3 bilhões em bitcoin. Desde o início de sua guinada, em 2024, as ações da companhia chegaram a um pico de 1.930 ienes em junho, mas já caíram mais de 70%.
O Japão também produziu alguns dos planos mais ambiciosos: a Convano, operadora de salões de beleza listada em Tóquio, anunciou em agosto que pretendia levantar cerca de 434 bilhões de ienes (US$ 3 bilhões) para comprar 21 mil bitcoins, um valor muito superior à sua própria capitalização de mercado.
Mesmo assim, há sinais de resistência. A MSCI, uma das maiores provedoras de índices do mundo, propôs recentemente excluir grandes DATs de seus índices globais, após um questionamento motivado pela venda internacional de ações de US$ 1,4 bilhão da Metaplanet, em setembro.
A Metaplanet, que integra o índice MSCI Japan Small Cap desde fevereiro, afirmou que usaria a maior parte dos recursos para comprar bitcoin – e já adquiriu outros 10.687 tokens.
A MSCI argumentou que as DATs “podem apresentar características semelhantes às de fundos de investimento”, que são inelegíveis para seus índices. A empresa sugeriu excluir companhias cujos ativos em cripto representem 50% ou mais do total.
Segundo o analista Travis Lundy, da Smartkarma, essa exclusão poderia eliminar os fluxos automáticos de capital vindos de fundos que replicam os índices. “Isso poderia acabar com o prêmio sobre o valor contábil dessas empresas”, escreveu.