Em um consultório de saúde, acolhi uma mulher de 75 anos, viúva, que morava sozinha. Tinha dois filhos, duas netas e uma amiga próxima. Sua saúde se agravou, ela passou a depender de ajuda em atividades cotidianas e precisou se mudar para a mansão de um dos filhos, em outra cidade. Essa história não está distante da nossa verdade – pode ser uma situação que você esteja vivendo hoje com avós ou pais, ou pode ser um revérbero do que muitos de nós poderemos enfrentar no porvir.
A rede de zelo familiar é composta por parentes, amigos e vizinhos. A família ainda é a principal manadeira de escora aos idosos (90,8%). Normalmente, o zelo é assumido por uma única pessoa – quase sempre uma mulher (72,1%) – esposa, filha ou até uma vizinha. Esse perfil é marcado por normas culturais, expectativas de gênero e pela própria história de vida das famílias.
As mudanças na estrutura das famílias, que estão menores e muitas vezes vivem em cidades diferentes, resultam em menos tempo e recursos para oferecer o zelo. Ao mesmo tempo, a população está envelhecendo rápido em um contexto de desigualdades sociais e, consequentemente, a urgência de zelo cresce, mas a oferta não acompanha esse ritmo.
Por isso, pensar no zelo uma vez que um recta social e uma responsabilidade de todos (família, comunidade e Estado) é necessário. Isso significa fortalecer políticas públicas já existentes e implementar a Política Vernáculo de Cuidados, aprovada em 2024. São necessários investimentos em serviços de saúde e da assistência social uma vez que: meio de convívio, centro-dias, cuidados domiciliares, instituições de longa permanência, entre outros, para ampliar a rede de zelo formal e prometer os cuidados à saúde, proteção social básica e especializada. O zelo também pode ser fortalecido por redes comunitárias, programas de escora às famílias e a ajuda de amigos e vizinhos.
Para a pergunta “quem cuidará de nós na vetustez?”, a resposta pode não ser um rebento, ou um parente. Talvez seja um vizinho, um colega ou um cuidador profissional. Cultive sua rede de cuidados, fortaleça os laços familiares, valorize as amizades e participe da sua comunidade. Se provável, planeje-
-se financeiramente. Cuidar de você hoje é cuidar da sua vetustez no porvir.
Daniella Pires Nunes é professora associada e coordenadora de extensão da Faculdade de Enfermagem da Unicamp, rabino e doutora em Ciências da Saúde e técnico em gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
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