Cena impactante e comovedora: ao volta só águas turvas das enchentes, casas encobertas até o telhado, e eis que sobre um telhado desponta um cavalo: dois pés de um lado e outros dois do outro da cumeeira da morada. Quedou-se aí, incorruptível, por 2-3 dias, noite e dia, sem poder mover-se. Qualquer movimento poderia fazê-lo escorregar e se precipitar no mar de águas barrentas. Teria morrido afogado.
O cavalo representa uma metáfora da resiliência, da esperança esperante de salvamento por uma psique compassiva; metáfora também da natureza que posta sob risco de vanescer, teima em permanecer se sustentando com suas próprias forças. Outra metáfora, e esta, sinistra, da incúria humana que permitiu as águas se rebelarem e destruírem tudo o que encontrava pela frente: pessoas, casas, animais, igrejas, escolas, universidades, museus. A fúria das águas parece não se importar por tudo o que os seres humanos com suor e luta tenham construído.
Há que se consentir que nós não temos respeitado os direitos da natureza com seu valor intrínseco, nem posto sob controle nossa voracidade de devastá-la para o enriquecimento de alguns à custa da miséria das grandes maiorias e do estabilidade ecológico do planeta. A consequência foi a mudança climática, o escaldamento irreversível da Terreno que causam eventos extremos uma vez que estas inundações de grande segmento das cidades do Rio Grande do Sul. Estas imagens, vindas do inconsciente do cavalo, de seus ancestrais, não estariam passando pela cabeça do Caramelo?
As novas ciências do universo, da Terreno e da vida (exclusivamente cito talvez o maior representante atual delas, o cosmólogo Brian Swimme da Califórnia, ao lado de Fritjof Capra, Mark Hathaway, Humberto Maturana do Chile e Amit Goswami da Índia entre tantos outros), projetaram o paradigma cosmogênico que é o imenso e multíplice processo da evolução do universo e da lenta emergência dentro dele de todos os seres.
Estes cientistas sustentam que o espírito é um atributo do universo e não só dos seres humanos. Ele seria tão ascendente quanto à material. Desde o momento em que duas partículas elementares (bosons, topquarks?) se formaram e entraram em relação, estabeleceram o início daquilo que chamamos espírito: a capacidade de interação, de estabelecer relações de todos com todos e de amontoar informações. A matriz relacional subjaz a todo o universo e a cada um dos seres nele existentes. É a presença do espírito Há graus diferentes de realização do mesmo princípio, mas o princípio é o mesmo: a pan-relacionalidade universal.
Um proporção de espírito se dá, por exemplo, na serra, inconsciente e irrefletido; outro proporção, talvez o mais proeminente, no ser humano, consciente e revérbero. A serra se relaciona com as energias do universo, com os raios do sol, com os ventos, as chuvas, os pássaros e com a pessoa que a contempla, extasiado. É a presença de seu espírito. Nós nos relacionamos conosco mesmos, com os outros, com a natureza, com o sol, com as estrelas e com todo o universo visível (só 5%, o restante é invisível) e com o Infinito. Todo nascente lio de relações diferenciadas constituem a verdade do espírito que perpassa todas as coisas. E o nosso de forma consciente e autorreflexiva. No seu proporção de espírito o Caramelo percebeu a tragédia que estava ocorrendo.
Sabemos também que a verdade se apresenta sob três formas: uma vez que vontade, uma vez que material e uma vez que informação. Me atenho à informação. Toda vez que seres se relacionam deixam marcas uns nos outros, trocam informações e as acumulam.
Por se tratar de espírito, em cada ser, principalmente nos vivos há imagens formadas por infindas relações/informações, desde os mais ancestrais até os mais recentes. Carl Jung chamaria de arquétipos. Há momentos em que os mais ancestrais irrompem uma vez que imagens acumuladas no inconsciente coletivo de sua espécie “cavalo”.
Aplicando ao cavalo Caramelo: nessa longa espera esperante, possivelmente imagens ancestrais inundaram sua mente: a vaga imagem de seu surgimento há 56 milhões de anos, uma vez que um pequeno vegetariano, de tamanho de um cão. Vivia nas florestas e logo posteriormente nas pastagens macias norte-americanas. Foi se desenvolvendo até se tornar um cavalo nas proporções atuais. Aí atravessou, pelo polo setentrião, a ponte de terreno de Bering e chegou à Ásia. Havia centenas de espécies de cavalos.
Para nós interessa o cavalo doméstico uma vez que o Caramelo. Nascente surgiu entre quatro e cinco milénio anos detrás, segundo dados arqueológicos, na Eurásia Ocidental, mais precisamente no sul da Rússia, na intersecção dos rios Volga e Don. Sua domesticação começou provavelmente no Cazaquistão por volta de 4 milénio anos detrás.
Portanto começou a sua saga: em sua mente provavelmente emergirem as imagens das várias formas uma vez que foi tratado o cavalo doméstico: uma vez que cavalo potente de tração e uso na lavoura, cavalo mais esbelto, de charrete, a serviço de reis e rainhas, cavalo de corrida e de entretenimento, cavalo para a caça, por isso mais dextro e atilado a qualquer soído. Mas principalmente foi usado para a guerra, uma vez que cavalo mais resistente e veloz. Em seguida foi usado uma vez que cavalo montado por policiais a término de manter a ordem e reprimir manifestações indesejadas pelos poderes estabelecidos. Mas o convívio com os humanos o tornou um ser afetivo e até terapêutico.
Sempre esteve a serviço dos seres humanos, com exceção dos cavalos selvagens que viviam e vivem em grupos nas florestas. Posso imaginar que tais imagens arquetípicas emergiram na mente do Caramelo, naquelas horas de solidão e de pavor, dormindo de pé uma vez que é de praxe dos cavalos. Mas seguramente, com patente orgulho, se recordava que eles, os cavalos, realizaram a primeira globalização, pois eles estavam em todas as partes do planeta, tornando as distâncias mais próximas e acessíveis.
Por término, possivelmente na mente do Caramelo surgiu a figura do ser humano que sempre o usou e que se fez assaltante, hostil aos ritmos da natureza, devastador dos bens e serviços essenciais para a vida. O resultado deste comportamento ocasionou a mudança climática, já irreversível que está na base da tragédia que vitimou vidas e tantas bens materiais e culturais. Ele mesmo está sendo vítima, junto com seus irmãos cachorros e gatos. O Caramelo, herdeiro de experiências de sua raça, deverá ter sentido isso.
Ele, em seu espírito, teria se questionado: será que nos seres humanos se extinguiram a dor, a solidariedade e o paixão? Quando viu que barcos se aproximavam para salvá-lo, sua mente se desanuviou. Deu-se conta de que neles ainda vigorava solidariedade e dor. Por isso se moveram para me tirar são e salvo de cima deste telhado. Tais figuras surgiram provavelmente em seu espírito.
O Caramelo foi resgatado, sob grande dificuldade e risco. Recebeu a chuva indispensável e o maná necessário. Que ele nos sirva de prelecção para não perdermos a esperança. Porquê ele foi salvo, nós humanos podemos também nos salvar.