Àquela altura, papa Francisco já havia deixado claro que a questão ambiental era uma de suas maiores preocupações. Quando estava encerrando uma missa especial de canonização de novos santos, em 15 de outubro de 2017, ele anunciou a convocação de um sínodo para o ano seguinte. O tema do encontro seria a região amazônica.
O principal objetivo dessa convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta amazônica, pulmão de grande importância para o nosso planeta
— declarou Francisco.
A notícia animou particularmente ambientalistas, ativistas da causa indígena e, claro, os moradores do bioma. Ao trazer a Amazônia para o centro do Vaticano, Francisco dava uma dimensão do tamanho que a questão representava não só para os oito países dos quais ela faz parte — mas para o planeta e a humanidade como um todo.
Dentro do jargão católico, sínodo é uma palavra muito utilizada. É como são nomeadas as assembleias de tempos em tempos convocadas pelo papa para discutir determinado tema. A palavra vem do grego. O prefixo syn traz o sentido de “junto com”. Hodós, substantivo, significa caminho. Em grego, synodéo é um verbo: fazer um caminho com alguém, caminhar junto.
A novidade de Francisco estava em trazer um tema ambiental para esse debate. O subtítulo da convocação, à guisa de tema, dizia que o encontro buscava “novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.
De acordo com o historiador Carlos Trubiliano, professor na Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e assistente técnico na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Sínodo para a Amazônia foi “um marco científico-espiritual”. “Veja, a Igreja convocou um sínodo especial, reunindo bispos, lideranças indígenas, cientistas e ambientalistas para discutir a realidade amazônica. São atores sociais discutindo problemas reais que afetam não apenas o recorte geográfico da Amazônia, mas todo o planeta”, comenta.
Ele lembra que ali “foram denunciados a exploração predatória, o desmatamento, a violação de direitos dos povos indígenas e, ao mesmo tempo, propôs-se caminhos para uma ecologia integral, indicando ao mundo uma mudança de paradigma que articulasse a justiça social, preservação ambiental e respeito à diversidade cultural”. “A Igreja passou a reconhecer que a crise ambiental é, em essência, uma crise humana, uma crise ética-espiritual”, define o historiador.
O primeiro legado do sínodo foi a expressão que o tema ganhou: “visibilidade para a Amazônia”No processo de construção do encontro — os dois anos entre o anúncio e o evento propriamente dito — ocorreram diálogos e escuta com os povos da Amazônia. Assim, antes mesmo dos católicos, os povos originários foram convidados a dar suas perspectivas, seus pontos de vista.
Ele levantou a bandeira da preservação da Amazônia e o sínodo foi um momento de muita importância. Estivemos presentes
— diz o pedagogo Alberto Terena, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (Apib). “O papa trouxe a questão do meio ambiente e também a luta pela demarcação dos territórios dos povos indígenas, a importância de garantirmos nossos direitos.”
Ao longo do mês de outubro de 2019, o Vaticano recebeu 114 bispos para falar sobre a Amazônia. Milhares de pessoas de todas as partes do mundo também participaram de alguma forma, inclusive representantes de comunidades amazônicas. Pelo menos 50 lideranças indígenas compartilharam suas experiências com a cúpula da Igreja. Mulheres também tiveram voz: foram 40 convidadas a participar dos debates, um número considerável para uma instituição milenar que poucas vezes dá espaço para o pensamento feminino.
Para especialistas, o primeiro legado do sínodo foi a expressão que o tema ganhou. “Ele trouxe visibilidade para a Amazônia. E não foi pouca coisa”, o frade franciscano Marcelo Toyansk Guimarães, coordenador do serviço Justiça, Paz e Integridade da Criação dos Frades Capuchinhos do Brasil, coordenador nacional da Pastoral da Moradia e Favela e assessor da Comissão Justiça e Paz da seção Sul 1 da CNBB.
Francisco colocou a pauta ambiental como um tema crucial para a humanidade. Quando a Igreja Católica faz isso, ela deixa a Amazônia em evidência, como elemento central para o século 21
— diz o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Isso obriga que os líderes mundiais tenham de olhar para a Amazônia, desenvolver políticas públicas [para protegê-la]. Porque há uma pressão mundial e agora com um player poderoso pressionando também: a figura do papa, a figura da Igreja Católica.”
Moraes atenta que políticas públicas são derivadas de avanços das discussões. “Quando a Igreja Católica, instituição de peso, entra nesse debate e apoia essa temática, isso faz com que os holofotes estejam voltados para isso. E os ganhos concretos virão ao longo dos anos”, contextualiza ele. Em sua visão, portanto, a maior conquista para o segmento, para os ativistas e para todos os envolvidos, é o fato de a instituição então capitaneada por Francisco ter fincado o pé na causa.
Foi o primeiro sínodo a trazer o nome de um bioma, refletindo a partir do chão, da vida
— define Guimarães.
O primeiro cardeal da Amazônia
Steiner: “A Igreja na Amazônia é missionária e leva em consideração a questão do meio ambiente”
O religioso também frisa que a visibilidade trazida para a Amazônia é o primeiro legado deixado pelo evento. E menos de três anos depois, o papa conferiu ao arcebispo de Manaus, Leonardo Ulrich Steiner, uma honraria inédita a um prelado da região. “Ele se tornou o primeiro cardeal da Amazônia”, ressalta o frade. “Isso valorizou a presença eclesial a partir de realidades socioambientais, com seus desafios específicos.”
Um dos 135 membros do colégio que vai, nos próximos dias, escolher o sucessor de Francisco, Steiner é muito ciente dessa responsabilidade. Ele também preside o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organismo vinculado à CNBB. Em sua avaliação, a principal consequência do sínodo realizado em 2019 foi a confirmação de uma caminhada que já vinha sendo feita “e que se deve fazer”. “A Igreja na Amazônia precisa de uma participação intensa dos leigos, é missionária e leva em consideração a questão do meio ambiente, da justiça, da importância dos pobres. Está atenta às mudanças”, comenta.
Embora Francisco tenha dado uma ênfase especial ao meio ambiente, o assunto não era uma completa novidade na esfera dos pontificados. O papa Paulo 6º (1897-1978) abordou o meio ambiente em uma carta apostólica publicada em maio de 1971. João Paulo 2º (1920-2005) demonstrou preocupação semelhante em mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990. O antecessor de Francisco, Bento 16 (1927-2022) também demonstrou postura ecológica em encíclica de junho de 2009. “O cuidado com a Casa Comum, a partir dos últimos pontífices, faz parte integrante da Doutrina Social da Igreja”, observa o CIMI, em texto publicado na época do Sínodo para a Amazônia.
Para o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o sínodo de 2019 forçou os religiosos “a terem um maior diálogo com os povos tradicionais e as questões ambientais”.
O papa foi um grande progressista não só por pensar na diversidade ética e religiosa, mas também por avançar no pensamento que envolve os temas ambientais, principalmente quanto às questões mais urgentes da humanidade, como as mudanças climáticas e o respeito aos povos originários
— ressalta ele.
Encontro durante o Sínodo de 2019, o primeiro a levar o nome de um bioma
Os quatros sonhos do Papa para o bioma
Todo sínodo deixa como legado um documento, chamado de exortação apostólica pós-sinodal. Baseado no relatório produzido pelos bispos, o papa produz esse texto com as mensagens de destaque do encontro e suas reflexões a partir dela. Em fevereiro de 2020 foi publicada a exortação Querida Amazônia.
No texto, Francisco compartilhou seus “quatro grandes sonhos” para a região. Ele vislumbrava uma Amazônia “que lute pelos direitos dos mais pobres”, “que preserve a riqueza cultural”, “que guarde zelosamente a sedutora beleza natural” e que as comunidades cristãs consigam ser “capazes de se devotar e encarnar na Amazônia”.
Além do magistério concentrado nesse documento, um legado concreto deixado pelo sínodo foi o entendimento que as organizações da Igreja — e, por conseguinte, de outras instituições — podem seguir os vínculos com o bioma, e não necessariamente obedecer às fronteiras político-históricas que se conformam em países.
Assim, em junho de 2020 foi criada a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), congregando episcopados de todos os países que formam o bioma. Era uma novidade, já que essas entidades que congregam bispos costumam obedecer às circunscrições territoriais de seus países de origem, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ou a Conferenza Episcopale Italiana (CEI).
No pós-sínodo tivemos a criação da CEAMA, não pensando só a partir da divisão de estado-nação, a partir das conferências já instituídas, mas pensando a partir da realidade da vida expressa nos biomas
— afirma Guimarães.
De lá para cá, como ele conta, outros exemplos semelhantes têm sido articulados ao redor do mundo em uma “tendência da Igreja de ter olhares de redes eclesiais a partir do chão, da vida, dos biomas”. “Os biomas são um grande agregador”, reflete o religioso. “Pensar a partir dos biomas, a partir de relações socioambientais, e não somente a partir de divisões históricas, é um avanço que o sínodo nos trouxe.”
Além da criação do Ceama, houve também o fortalecimento de organismos ligados à Igreja com atuação política, religiosa e social na Amazônia. O historiador Trubiliano elenca este ponto como um dos “efeitos práticos” pós-sinodais, lembrando da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) e do próprio Cimi. Segundo ele, tais entidades “têm apoiado projetos de defesa ambiental e de proteção social, especialmente aos povos indígenas”.
Outro ponto importante diz muito aos católicos — mas tem implicações para todo o planeta. Após o sínodo, Francisco incluiu na doutrina da Igreja um novo conceito de pecado. “Do ponto de vista espiritual, o reconhecimento do pecado ecológico introduziu o entendimento teológico de que destruir a natureza é também uma ofensa a Deus”, ressalta Trubiliano.
Amazônia para os mais pobres, que valoriza a riqueza cultural, protege a beleza natural, promova comunidades cristãs
A partir de então, não zelar pelo meio ambiente se tornou uma questão também de confessionário. “Papa Francisco, no final das contas, propôs uma visão de mundo em que a religiosidade cristã deve estar necessariamente articulada com uma responsabilidade ambiental”, diz Ramirez.
Não é à toa o carinho manifestado a ele por representantes dos povos originários. “Queríamos agradecer a ele, agradecer por esse período”, afirma Terena. “Ele foi um elemento principal para que a nossa pauta tivesse visibilidade. Uma figura importantíssima para protagonizar a necessidade da preservação do meio ambiente, da floresta, da vida e da biodiversidade do planeta.”
A gente só tem a agradecer por tudo o que ele fez, ajudando a nossa caminhada, dentro das lutas de preservação do meio ambiente, do nosso território, da Amazônia e também das nossas vidas, como povos indígenas
— completa. Caminhada. Em conjunto. A ideia do sínodo, afinal?