Publicidade
Capa / #VoceViu

Obra prima de Jeferson Tenório é censurada mais uma vez

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 02/03/2024 às 13:32 · Atualizado há 2 dias

Vencedor do Jabuti em 2021, o jornalista Jeferson Tenório teve seu premiado livro “O avesso da pele” censurado na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul.

Janaina Venzon, diretora da escola Ernesto Alves, gravou um vídeo nesta sexta-feira (1) em que critica “palavras de grave jargão” no livro e o que ela labareda de “atos sexuais”. A escolha da obra se deu pelo Programa Pátrio do Livro e do Material Didático (PNLD) e foi feita pela própria diretora.

Todos os exemplares do livro foram retirados das bibliotecas da cidade de Santa Cruz do Sul “até resposta do governo”, disse a diretora, que classificou o livro porquê “nojento”.

“O avesso da pele”, lançado em 2020, conta uma história sobre racismo, violência e identidade. É a “história de uma ferida”, segundo o próprio narrador, Pedro, que procura recriar a vida dos pais, Martha e Henrique, professor de uma escola na periferia de Porto Jubiloso que é vítima de uma abordagem policial violenta.

Em seu Instagram, Tenório falou sobre a exprobação na manhã deste sábado (2):

“‘O avesso da pele’ já foi adotado em centenas de escolas pelo Brasil, venceu o prêmio Jabuti, foi finalista de outros prêmios, teve direitos de publicação vendidos para mais de 10 países, foi ajustado para o teatro. Ou por outra, o livro foi medido pelo PNLD, em 2021, ainda no governo Bolsonaro. A própria diretora assinou a ata de escolha do livro. As distorções e fake news são estratégias de uma extrema direita que promove a desinformação. O mais curioso é que as palavras de ‘grave jargão’ e os atos sexuais do livro causam mais incômodo do que o racismo, a violência policial e a morte de pessoas negras”.

Tenório disse ainda que “não vamos concordar qualquer tipo de exprobação ou movimentos autoritários que prejudiquem estudantes de ler e refletir sobre a sociedade em que vivemos”.

Com "O avesso da pele", Tenório se consagrou nas letras brasileiras

Tenório se consagrou nas letras brasileiras com seu premiado “O avesso da pele”

ANTES, TENÓRIO FOI CENSURADO EM SALVADOR

Não é a primeira vez que o romance de Tenório sofre exprobação em uma escola do país. Com direitos vendidos para Inglaterra, França, Portugal, Itália, Suécia, Eslováquia, China, México, Canadá e Estados Unidos, o livro foi censurado antes em uma escola privado de Salvador.

Tenório chegou a receber ameaças de morte na estação, em 2022. Disse ele em entrevista ao jornal O Orbe:

“Nas ameaças anônimas diziam que se eu fosse na escola eu teria ‘meu CPF cancelado’ ou que ‘teria de fugir do País’ para não ser metralhado”, conta o jornalista. “Decidi tornar estas ameaças públicas para me proteger e também para que estas pessoas saibam que elas não podem cometer esses crimes e acharem que tudo ficará por isso mesmo. Não ficará.”

A historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz criticou a exprobação em suas redes sociais:

“Antes, foi uma escola privada em Salvador, agora em Santa Cruz do Sul, no estado do Rio Grande do Sul. Vale sobresair que foi a própria diretora acusante quem selecionou o livro. Por que mudou de teoria, logo? Não será pelos motivos elencados, mas por conta da sátira possante que o responsável faz ao racismo vigente no Brasil e, que porquê mostra o romance, estrutura a nossa vida e nossa linguagem. O próprio tratamento que tem sido oferecido à obra é prova cabal disto. Vergonha. Toda minha solidariedade ao Jeferson Tenório”, escreveu a antropóloga em sua conta no Instagram.

Primeiro livro de Tenório foi bem recebido pela crítica

Primeiro livro de Tenório foi muito recebido pela sátira

Os dois romances anteriores de Tenório já haviam sido muito recebidos pela sátira. “O ósculo na parede”, de 2013, foi premiado pela Associação Gaúcha de Escritores, selecionado para o Projecto Pátrio do Livro e do Material Didático (PNLD) e distribuído em escolas de todo o país, com mais de 80 milénio cópias vendidas. “Estela sem Deus”, de 2018, também ganhou elogios, porquê do responsável Tom Farias, no jornal O Orbe: “o responsável transborda talento ao narrar a experiência de uma jovem em procura de sua identidade”, escreveu. Mas foi com “O avesso da pele” e o Jabuti que Tenório entrou no primeiro time dos escritores brasileiros.

Comentários (0)

Faça login ou cadastre-se para participar da discussão.

Seja o primeiro a comentar!

Publicidade