Cristina Indio do Brasil — Dependência Brasil
O acadêmico, diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e historiador Alberto Costa e Silva morreu na madrugada de hoje, em vivenda, de causas naturais, aos 92 anos. De contrato com a Liceu Brasileira de Letras (ABL), não haverá velório, e o corpo será cremado amanhã em cerimônia restrita à família.
Técnico na cultura e na história da África, Costa e Silva foi emissário do Brasil na Nigéria e no Benin, e é considerado um dos mais importantes intelectuais brasileiros. “Sua obra é fundamental para o desenvolvimento dos estudos e do ensino da história do continente africano. Escreveu mais de 40 livros, entre verso, experiência, história, infantojuvenil, memória, florilégio, versão e adaptação”, informou, em nota, a ABL.
Eleito para a ABL em 2000, foi o quarto ocupante da cadeira nº 9, na sucessão de Carlos Chagas Rebento. Alberto Costa e Silva foi presidente da Liceu no biênio 2002-2003 e ocupou os cargos de secretário-geral em 2001, primeiro secretário em 2008-2009 e diretor das Bibliotecas em 2010-15. Era também sócio correspondente da Liceu das Ciências de Lisboa e da Liceu Portuguesa da História. A diplomação no Instituto Rio Branco ocorreu em 1957.
O acadêmico nasceu no dia 12 de maio de 1931, em São Paulo, e fez os estudos primários e o curso secundário foram em Fortaleza. Em 1943, mudou-se para o Rio de Janeiro. No exposição de posse na ABL, destacou a sua brasilidade.
“Carlos Chagas Rebento desejou para esta cadeira que fosse uma ‘cadeira cativa’ carioca. Não o desapontará de todo estar eu cá. Meu pai era de Amarante, no Piauí, de mãe maranhense, e estudou no Recife; minha mãe era de Camocim, no Ceará, criada em Manaus; tive um irmão carioca e dois mineiros, um deles educado em São Luís do Maranhão; de minhas irmãs, uma nasceu no Amazonas e a outra no Rio; deixei de ser gaúcho por três meses e fui nascer em São Paulo. Se me considero piauiense de coração, aportado, pela puerícia, em Fortaleza, acabo de esboçar a ficha pessoal e familiar de um verdadeiro cidadão do Rio de Janeiro, cujas velhas ruas mais de uma vez percorri na companhia de um dos mais fraternos de meus amigos, Herberto Sales, e de um de seus amigos mais fraternos, Marques Rebelo”, discursou na ocasião.
ÁFRICA
O interesse de Costa e Silva pela história da África foi despertado pelos livros Os Africanos no Brasil, de Nina Rodrigues, e Moradia Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. No início da curso diplomática, fez a primeira viagem à África, porquê integrante da comitiva do portanto ministro das Relações Exteriores, Negrão de Lima, representante do Brasil nas cerimônias de independência da Nigéria, em 1960. “Desde portanto seu interesse pelo continente, divulgado pelos que com ele conviviam, fez com que fosse eleito para missões na África”, disse a historiadora Marina de Mello e Souza.
CONDECORAÇÕES
Entre as condecorações que recebeu no Brasil estão a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco; Grande Solene da Ordem do Valor Militar; Grande Solene da Ordem do Valor Aeronáutico; Comendador da Ordem do Valor Naval e Comendador da Ordem do Valor Cultural. Fora do país, entre outras, recebeu em Portugal a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo; Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Gládio; Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique; na Colômbia, Grã-Cruz de Boyacá; comendador da Ordem de San Carlos; na Espanha, comendador com placa da Ordem de Isabel, a Católica; e, na Itália, Grande Solene da Ordem do Valor.
MENSAGENS
Em mensagem na rede X (macróbio Twitter), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, manifestou tarar com o falecimento do diplomata, ensaísta, historiador e um dos mais importantes conhecedores da África no Brasil, Alberto Costa e Silva.
“Membro da Liceu Brasileira de Letras, teve um papel fundamental na necessária aproximação entre o Brasil e o continente africano, de onde nutrimos nossas origens e em cuja ancestralidade alimentamos os nossos saberes. Sobre o rio chamado Atlântico, que Alberto identificou, seguiremos construindo as pontes que ele sonhou”, escreveu o presidente. “Meu amplexo solidário aos filhos, netos e todos os familiares de um dos mais importantes intelectuais brasileiros no século XX”, postou Lula
Para o presidente da ABL, Merval Pereira, a morte de Alberto Costa e Silva tem efeitos múltiplos, todos negativos para a cultura brasileira, que perde um dos seus maiores intelectuais de todos os tempos.
“Para o estudo da África, Alberto foi um dos maiores, senão o maior africanólogo brasílico. Tinha uma dimensão histórica e política sobre nossas relações com a África, e dava a influência que ela sempre teve, mas nunca foi devidamente enaltecida porquê ele fez em seus livros. Ganhou o Prêmio Camões, o maior prêmio da língua portuguesa por esta especificação da influência da África no desenvolvimento brasílico. Era um grande poeta, grande intelectual, grande diplomata. Internamente, nós, da ABL, perdemos uma de nossas bússolas. Alberto dava a direção e a solução correta quando tínhamos dúvidas. É uma perda que tem consequências graves para a ABL, para a cultura brasileira e para o Brasil porquê um todo”, afirmou o jornalista.
João Almino também lamentou a morte do companheiro. “Uma inestimável perda para a ABL e o Brasil do grande varão que foi Alberto Costa e Silva, porquê diplomata e porquê intelectual, historiador e africanista, reconhecido dentro e fora do Brasil, com uma obra sólida na ficção, na verso e no experiência. Presença marcante nas reuniões da ABL enquanto sua saúde permitiu, sempre guardaremos as melhores recordações de sua vasta cultura e de seu humor”, disse.
O acadêmico Arnaldo Niskier destacou a atuação impecável de Alberto Costa e Silva na ABL. “Sua presidência na Moradia de Machado de Assis foi simplesmente histórica! Estivemos com ele ao lado de sua querida Vera na Embaixada do Brasil guardando até hoje esses momentos felizes. Uma vez que historiador e africanista, deixou um magnífico trabalho. Sentiremos muito a sua falta.”
A escritora Ana Maria Machado disse que, apesar de saber que o colega vinha enfrentando problemas graves de saúde e se apagando aos poucos, a morte do companheiro representa para ela uma tristeza imensa. “Eu gostava imensamente dele, foi um privilégio ter convivido de perto com Alberto durante anos, um dos responsáveis diretos por minha ingresso para a ABL.”
Segundo a acadêmica, além do historiador e africanólogo “incomparável e réplica”, a quem o mundo tanto deve, e o Brasil nunca louvará suficientemente, Alberto Costa e Silva foi bom poeta e magnífico memorialista. “Capaz de perfurar mão de vaidades individuais em seus escritos e remomerar com acuidade e precisão ambientes, costumes e pessoas do pretérito, personalidades importantes com quem conviveu, detalhes preciosos dos bastidores do poder.”
Para Cacá Diegues, o colega foi um irrepreensível membro da ateneu. “Sua morte deixa um imenso vazio no espírito da ABL, é uma carência grave entre nossos especialistas: ninguém no Brasil possui o conhecimento da África porquê ele o possuía, ninguém sabia mais sobre a história e a economia daquele continente, ninguém era tão íntimo da cultura popular africana porquê ele. Vamos levar muitos anos, quem sabe, décadas, para formar um outro profissional em África porquê Alberto Costa e Silva! O luto da ABL é totalidade e irreparável. E o do Brasil também”, completou.
ITAMARATY
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) informou, com grande tarar, o falecimento do emissário Alberto Costa e Silva. “Uma vez que diplomata, ocupou relevantes funções em Brasília, entre elas a de superintendente do Departamento Cultural (1983-1984), a de subsecretário universal de Governo (1984-86) e a de Inspetor do Serviço Exterior (1995-98). Ao longo de uma curso destacada, no exterior, serviu inicialmente nas embaixadas em Lisboa, Washington, Caracas, Madri e Roma, antes de ser emissário na Nigéria (1979-83) e cumulativamente em Cotonu, Benin (1981-1983), em Portugal (1986-90), na Colômbia (1990-93) e no Paraguai (1993-95). Sua valiosa e extensa taxa diplomática o tornou um dos artífices da política externa brasileira para a África”, diz o texto.
De contrato com o ministério, Alberto Costa e Silva deixa sete netos, uma bisneta recém-nascida e três filhos, todos vinculados ao Itamaraty: a embaixatriz Elza Maria e os embaixadores Antônio Francisco e Pedro Miguel. “O Ministério das Relações Exteriores expressa à família, aos amigos e aos discípulos do emissário Alberto da Costa e Silva as mais sentidas pêsames”, conclui a nota.