O ano que começou com uma tentativa terrorista de golpe de Estado termina com a democracia de pé e com firmeza institucional. O Brasil recuperou credibilidade, voltou a ser respeitado e ouvido.
Na economia, temos resultados a comemorar: inflação sob controle, juros em queda (ainda que muito lentamente), trabalho e salários em recuperação. O governo Lula conseguiu ratificar uma reforma tributária importante, ainda que insuficiente e de implantação gradual.
Não é pouco diante da terreno arrasada deixada pelo bolsonarismo, embora ainda esteja distante do país que sonhamos: menos desigual, sem rafa, onde a subida social seja verosímil e os filhos da periferia possam realizar sonhos.
Sim, temos um Congresso vorazmente fisiológico, com soberania da direita e inédita força da extrema direita, disposto a esticar a corda no embate com os demais poderes. O padrão do chamado presidencialismo de coalizão parece esgotado. Teremos que inventar qualquer outro conspiração político.
Cada coisa a seu tempo. Foi um ano bom, que reforça minha crença de que o Brasil é um país vocacionado para a democracia e a inclusão, apesar de toda a violência no nosso processo de formação. Escrevo com plena consciência das dificuldades que temos avante, mas também com a certeza sobre nossas capacidades.
Somos um país solidário e generoso. Por isso, na minha última pilastra do ano, quero festejar com os leitores que me acompanham neste espaço. Ofereço a vocês os meus “quereres” de ano novo neste poeminha improvisado, desejando que sejam uma inspiração.
“Em 2024, quero errar, quero concertar, tentar, testar. Quero ouvir mais Chico e Tom, reler Vinicius, Drummond. Quero vento no cabelo, cheiro de mato, manhãs. Pé na estrada, quero mar, banho de chuva, chuveiro, mangueira e também de rio. Quero um firmamento pleno de estrelas, quero ler, quero grafar, falar menos, escutar mais, menos estrondo, silêncio.
Encontrar mais os amigos, os novos e os antigos; lucrar livros de presente, ter tempo de ler um por um. Manducar muito rebuçado de leite e queijo com goiabada. Quero um batuque no peito, coração precipitado, quero trovar e dançar, voar na ponta dos pés.
Quero cruzar Gibraltar, quero um trem pra Marrakech, quero ir na esquina do mundo, quero o assovio do vento e o sopro dos continentes. Quero democracia pra todos, cada vez mais e melhor. Quero terreno e quero chuva. Quero bênção, quero axé e o Vela de Nazaré. Quero o primícias, a origem, quero o caminho e o término.”
Feliz Ano Novo!