Influenciador Julio Mamute chegou aos 300 kg durante a pandemia, viveu isolamento, depressão e compulsão alimentar, especialmente por açúcar.
Tentou diferentes estratégias para emagrecer — incluindo balão gástrico e medicamentos —sem sucesso sustentado antes de iniciar mudanças graduais.
Começou a perder peso com exercícios de baixo impacto, como natação, e passou a registrar o processo nas redes sociais, onde soma cerca de 3 milhões de seguidores.
Em 2025, decidiu participar da Corrida de São Silvestre andando, após avaliações médicas e apesar de alertas sobre riscos físicos.
Concluiu o percurso em quase seis horas e diz que o processo de emagrecimento segue em curso, com recaídas e retomadas.
‘Vivia entorpecido por açúcar’: o processo de emagrecimento do influenciador Julio Mamute
Julio Mamute, 35, não se tornou conhecido nas redes sociais por falar de corrida. Quando começou a publicar vídeos, em janeiro de 2025, a ideia era registrar um processo de emagrecimento que ele mesmo não sabia se daria certo. O perfil cresceu rápido. Vieram os seguidores, as visualizações, os comentários. Mas, fora da tela, o corpo continuava impondo limites.
Poucos anos antes, Julio ultrapassara os 300 quilos. Hoje, pesa 200. A meta, ele conta ao g1, não é chegar a um peso mínimo para fazer cirurgia.
O influenciador Julio Mamute participou da última Corrida de São Silvestre. — Foto: Arquivo Pessoal
Não fui uma criança obesa. Meus pais não eram obesos. Não tem uma causa única para apontar
— Julio começou a engordar ainda na adolescência, por volta dos 12 anos. Não associa a obesidade à infância nem a traumas específicos. , diz.
O peso aumentou de forma progressiva ao longo da vida adulta, em meio a rotinas sem horário fixo, noites viradas trabalhando e alimentação desorganizada. Com o tempo, comer deixou de ser uma decisão consciente.
A obesidade é um pântano. Você vai afundando devagar. Chega um momento em que não há mais escolha. O açúcar vira vício. Eu vivia entorpecido por açúcar, comia pelo vício, não por fome
— afirma.
Você sabe exatamente o que deveria fazer. O problema não é saber. É conseguir.
— Segundo ele, depois de certo ponto, o corpo passa a responder menos.
Eu não queria ver a praia. Não queria ver ninguém. Eu só existia dentro daquele quarto
— Durante a pandemia de coronavírus, ele morava em Recife, a poucos metros da praia de Boa Viagem. Mesmo assim, evitava abrir a janela. , conta.
Com mais de 300 quilos, a mobilidade se deteriorou rapidamente. Entrar no carro exigia esforço; sair, às vezes, era impossível. Caminhar longas distâncias deixou de ser uma opção e, em alguns períodos, ele precisou usar muletas.
Teve fase em que eu não conseguia sair do carro sozinho. Não conseguia abrir a porta
— Tarefas simples do dia a dia passaram a depender da ajuda de outras pessoas. , relata.
Em um aniversário, Julio passou o dia sozinho em casa. Na mesma data, nasceu seu primeiro sobrinho. Ele chegou a comprar um presente, mas não conseguiu sair para entregar. Precisou ligar para a irmã e pedir que ela buscasse o brinquedo.
Ali eu me senti inútil. Pensei: ‘Se não consigo entregar um presente, como vou brincar com um filho meu?’
— diz.
Julio e o sobrinho, que nasceu no dia de seu aniversário — Foto: Arquivo Pessoal
Antes de iniciar uma perda de peso mais consistente, Julio passou por praticamente todas as estratégias disponíveis. Usou medicamentos para emagrecimento, como Ozempic, Saxenda e Mounjaro —alguns importados antes da liberação no Brasil.
Em 2021, colocou um balão gástrico. Mesmo com o dispositivo e o uso simultâneo de semaglutida, engordou cerca de 40 quilos. O balão acabou se rompendo e precisou ser retirado às pressas.
Quando a compulsão está muito instalada, não é fome. Dá para engordar com qualquer ferramenta
— diz.
Cada tentativa frustrada te afunda um pouco mais. É como areia movediça
— Depois da retirada do balão, o peso voltou a subir. , resume.
Julio Mamute chegou a pesar 300 quilos — Foto: Arquivo Pessoal
Julio sabia que não poderia iniciar caminhadas nem exercícios de impacto. Procurou algo que não machucasse o corpo. Tentou hidroginástica, até se fixar na natação.
A piscina foi o primeiro lugar em que eu consegui me mexer sem dor
— afirma.
Ele atribui à natação a perda dos primeiros 90 a 100 quilos. O processo, no entanto, não foi contínuo. Em 2024, após a morte do pai, voltou a ganhar peso. “Eu me sabotei de novo”, admite.
Ainda assim, retomou. Cada número perdido na balança ele multiplica em alimentos doados.
Em janeiro de 2025, decidiu registrar o cotidiano nas redes sociais. O perfil cresceu rapidamente e passou a somar cerca de 3 milhões de seguidores. A exposição trouxe alcance, mas não eliminou o esforço diário.
São Silvestre foi sonho realizado para Julio — Foto: Arquivo Pessoal
Depois de se mudar de Recife para São Paulo, a São Silvestre voltou ao campo das possibilidades.
Eu nunca tinha corrido 15 quilômetros na vida
— conta. A ideia de participar da prova surgiu de um seguidor. “Nunca tinha passado na minha cabeça, até que começou a passar”.
Muita gente falou: ‘você está doido, não vai’
— A decisão não foi consenso. Julio ouviu de muita gente que não deveria tentar. O receio principal era o impacto sobre um corpo ainda muito pesado, com risco aumentado de sobrecarga articular, lesões nos pés e nos joelhos, além de eventos cardiovasculares. , conta.
Uma coisa é achar que dá certo, outra é sentir a pressão no corpo.
— Ele próprio tinha consciência dos limites. Antes de largar, fez exames cardiológicos e decidiu que só seguiria se fosse andando, com pausas frequentes e sem qualquer meta de tempo.
No quilômetro 7,5, pensou seriamente em desistir. A dor nos pés era intensa. O cansaço se acumulava. Ele deitou no asfalto e mandou mensagem para a irmã dizendo que talvez não conseguisse continuar.
Na minha cabeça, ter feito metade do trajeto era suficiente. Já era uma conquista. Minha mente dizia ‘pare, ninguém se importa; já deu’
— relata.
Pouco depois, recebeu um vídeo do sobrinho incentivando que seguisse. Chorou. Trocou a meia. Levantou.
A maior parte do percurso foi feita andando. Na subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, o esforço aumentou. Julio parava, bebia água, retomava.
Umas 5 mil mãos bateram nas minhas costas, foi enlouquecedor
— Um ultramaratonista largou a própria prova e passou a caminhar com ele por um trecho. Pessoas que acompanhavam a transmissão ao vivo se aproximavam. , ele relembra.
Não recebi medalha, mas não foi um problema. Foi uma experiência incrível
— Nos metros finais, ao avistar a linha de chegada, conseguiu trotar por alguns segundos. Chegou depois de seis horas. O pórtico já estava sendo desmontado. , diz.
Hoje, Julio mantém uma rotina com natação, musculação e caminhadas. O peso ainda oscila. A compulsão não desapareceu.
Tem dia que eu ganho. Tem dia que eu perco. Isso não some. É um dia de cada vez.
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