O luto das famílias que tentam ressignificar a vida depois de um feminicídio
“Catarina, presente! Débora, presente! Taís, presente!”
Esses foram os gritos que ecoaram pelas ruas de Florianópolis nesta semana durante marcha em protesto pela morte da professora Catarina Kasten, de 31 anos, vítima do mais recente caso de feminicídio em Santa Catarina.
O caso dela, infelizmente, não é solitário e neste mês de novembro passou a integrar uma estatística negativa. Segundo dados do Observatório de Violência contra a Mulher, o estado registrou 38 feminicídios até outubro de 2025. Com os casos de novembro, o totalidade deve chegar a 47, tornando oriente o mês com maior número de feminicídios do ano (veja os dados ao longo da material).
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Até logo, fevereiro, julho e setembro lideravam com cinco feminicídios cada, enquanto outubro registrou quatro casos. Novembro, porém, quase dobrou esses números: foram nove mortes, o mesmo totalidade que a soma de setembro e outubro juntos.
Entre esses crimes está o feminicídio da professora Catarina, morta na trilha do Matadeiro, que dá aproximação à praia onde ela morava.
O celerado, Giovane Corrêa Mayer, de 21 anos, confessou ter estuprado e matado Catarina enquanto ela seguia para uma lição de natação. Ele está recluso preventivamente e vai responder por estupro e feminicídio.
Catarina Kasten, aos 31 anos, era estudante de pós-graduação na UFSC
UFSC/Divulgação
Saudade passou a ser acompanhada do pânico, diz amiga
Catarina, descrita pelas amigas uma vez que alguém que “amava viver e fazer coisas novas”. Além da saudade, ficou o pânico. Eliane Ventura, amiga de Catarina que participou da marcha, contou que agora recebe mensagens da mãe pedindo para não trespassar de morada e lamentou:
“Esse não pode ser o preço que nós, mulheres, precisamos remunerar”, lamentou.
A psicóloga Ivânia Jann, coordenadora do Laboratório de Processos Clínicos de Luto da Universidade Federalista de Santa Catarina (UFSC), explica que mortes violentas têm impacto profundo e a estado da morte determina um luto mais traumático, mais prolongado e com impacto direto na qualidade de vida de quem fica.
O companheiro de Catarina, Gabriel Negrão, reforça que todas as vítimas tinham histórias, famílias e sonhos interrompidos. Para ele, essa conversa não pode ser exclusivamente entre mulheres.
“As mulheres sofrem isso, mas nós homens temos que nos posicionar, aprender uma vez que ajudar, uma vez que amparar, uma vez que dar voz para que isso não se repita. Porque é um paradoxal.”
Fotos enviadas pelo companheiro mostram Catarina na frente de terreno em que iria erigir morada com companheiro
Reprodução/Registo Pessoal
Casos em SC
Esse impacto é sentido por Pabliane, que há cinco anos tenta conviver com a morte da mãe, Patrícia Vicente, de 43 anos, assassinada pelo ex-companheiro que não aceitava o termo da relação.
Na quadra, Patrícia desapareceu na madrugada de sexta-feira. No sábado à noite, o sege dela foi encontrado no estacionamento de um mercado em São José. O corpo estava no porta-malas.
“A minha mãe era uma mulher guerreira que enfrentava qualquer coisa pela gente, né? Batia no peito, eu sou a Patrícia. A gente nunca mais é o mesmo. Só eu sei o quanto eu me arrependo de não abraçar ela se eu soubesse que era o último”, lembra Pabliane.
Hoje, ela conta que faz tratamento para depressão, crises de pânico e sofreguidão. Ela ainda diz que não consegue mais marchar na rua sem sentir pânico.
Segundo a psicóloga, memórias traumáticas são comuns nesses casos e quem perde alguém por feminicídio terá que integrar a dor na memória do ente querido e na memória da perda.
“É nosso pertencimento, nosso mundo, nosso contexto social que é comovido. Logo elas se perguntam: será que eu tô segura? Será que eu tenho recta a viver e não ser morta jovem?”, explica a psicóloga.
Em Criciúma, Rita de Cássia da Silva Silveira, de 59 anos, e a filha dela, Talia da Silva Silveira, de 28, foram mortas pelo próprio rebento e irmão. O varão acabou baleado e morto pela polícia no momento em que os agentes chegaram à morada onde o violação aconteceu.
De convénio com a polícia, ele estava em provável surto e apontava a arma para vizinhos e para os agentes. Houve tentativa de negociação para que largasse o armamento, mas, segundo a corporação, ele não obedeceu aos comandos.
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📈Os números da violência
Outros dados do Observatório mostram:
Fita etária das vítimas com mais casos: 45 a 54 anos (10 feminicídios).
Fita etária dos autores com maior recorrência: 25 a 29 anos (7 casos).
Boletim de ocorrência: em 92,1% dos casos, a vítima nunca havia registrado denúncia. Já 65,8% dos autores tinham qualquer B.O. anterior.
A arma branca foi a mais usada, presente em 19 casos. Já a arma de lume aparece em 8 ocorrências.
Infográfico - Risco do tempo do caso Catarina Kasten
arte/g1
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