Publicidade
Capa / Última Hora

Caso Benício: pais denunciam sucessão de erros em atendimento que terminou com morte do filho de 6 anos

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 07/12/2025 às 23:39 · Atualizado há 3 dias
Caso Benício: pais denunciam sucessão de erros em atendimento que terminou com morte do filho de 6 anos
Foto: Reprodução / Arquivo

Imagens exclusivas revelam porquê foi o atendimento ao menino Benício, vítima de um erro médico
Benício, de 6 anos, chegou andando ao Hospital Santa Júlia, em Manaus, com tosse seca e febre. A suspeita era laringite. "Eu falei para o meu marido: 'vamos levar ele na emergência?' Porque eu acredito que seja a goela dele que está muito inflamada”, diz a mãe, Joice Xavier de Roble.
A família passou quase 14 horas dentro do hospital. Imagens exclusivas exibidas pelo Fantástico mostram a família em sala de espera e durante o atendimento.
O pai, Bruno Mello de Freitas, acompanhou o menino o tempo todo: "Nenhum pai, nenhuma mãe, leva seu rebento para um hospital para morrer. Ainda mais da forma que o Benício morreu. Dessa sucessão de erros, dessa negligência que a gente verificou".
Era sábado, dia 22 de novembro. Na triagem, o quadro não foi considerado grave. "Só podia entrar um no consultório, eu entrei com ele. E aí, ela pediu para calcular ele. Falou que ele ia fazer adrenalina. Ela não explicou o meio, só falou fazer a adrenalina."
Imagens mostram Benício em sala de emergência
Reprodução/Fantástico
Um mês antes, Benício tinha sido atendido no mesmo hospital, com o mesmo quadro. A mãe diz que Benício foi tratado com adrenalina por inalação.
Segundo o pediatra Márcio Moreira, do Hospital Israelita Albert Einstein, "sendo um caso de laringite, a gente usa adrenalina inalatória regularmente. A gente faz a inalação com a adrenalina e espera uma melhora rápida, mesmo que fugaz".
A adrenalina, produzida pelo corpo e também sintetizada porquê medicamento, é indicada para inalação em quadros leves. A versão injetável, na veia, é usada em situações graves, porquê paradas cardiorrespiratórias, e administrada em doses muito pequenas, lentamente, geralmente na terapia intensiva.
"Para mim estava tudo visível que seria inalação. Portanto, eu não questionei ela. Eu só falei ok", lembra Joice.
A médica que atendeu Benício era Juliana Brasil Santos. A receita de Juliana indicava adrenalina pura, não diluída, aplicada na veia, em três doses que somavam 9 miligramas. A família seguiu com a receita para a fileira da enfermaria.
Imagem da receita de adrenalina para Benício
Reprodução/Fantástico
Joice questionou ao ver o soro injetável: "Cadê a inalação para adrenalina? Sempre foi por inalação". Segundo ela, a técnica de enfermagem Raíza Bentes respondeu que também nunca fez na veia, mas que estaria indicado na receita médica.
Os pais afirmam que, logo em seguida receber a adrenalina na veia, Benício ficou pálido e reclamou de dor no coração. Joice lembra: "Aí eu primícias a entrar em desespero. Meu marido fala: 'corre e labareda o médico'".
Raíza foi detrás da médica. "Eu informei que tinha dirigido a medicação e que a muchacho tinha tido reação. (…) Falei que foi adrenalina. E aí ela pegou e falou ‘tá bom'", conta a técnica de enfermagem.
Em mensagens de WhatsApp para outro médico, Juliana escreveu: "Eu que errei na receita". Depois, em relatório ao hospital, reafirmou que "prescreveu erroneamente".
Benício foi levado às pressas para a sala vermelha, de emergências. Os pais dizem que ele estava consciente, mas tinha dificuldade para respirar.
Quatro horas depois, o menino foi transferido para a UTI. Passou um período com o pai, fez uma repasto e, horas depois, foi intubado. "Eu falava com ele internamente: 'bora, rebento. Bora. Melhora essa oxigenação'. Eu rezava muito", afirma Bruno.
Benício teve seis paradas cardíacas e não resistiu.
"É uma dor muito grande que vou levar para a minha vida toda", diz o pai. "Pelo que a gente está analisando, verificando, observando, é uma sucessão de erros."
Investigação
A polícia investiga falhas na intubação e a pouquidade de checagem do farmacêutico da unidade. O presidente do Juízo Regional de Farmácia do Amazonas, Reginaldo Silva Costa, afirma: “Certamente, o profissional farmacêutico teria identificado a superdose e solicitado ao profissional prescritor que pudesse rever a sua receita".
"Percebe-se um erro estrutural, sequencial de protocolos, de cuidados", diz o solicitador Marcelo Martins. "E aí você vê que o Benício não teve chance."
Questionado se o menino foi vítima de um violação, ele responde: "Com certeza, um homicídio. A médica simplesmente emitiu uma receita médica e não revisou, que seria uma conduta básica de dupla checagem. A técnica de enfermagem poderia também ter realizado a dupla checagem. E teria evitado esse resultado".
A técnica de enfermagem se defende: "Eu administrei a medicação conforme a receita médica. Não tive auxílio, estava sozinha".
Raíza Bentes trabalha porquê técnica há sete meses. Ela foi suspensa pelo Juízo Regional de Enfermagem e responde em liberdade.
Em nota, sua resguardo afirma que só irá se manifestar em seguida o término das investigações e que ela seguiu a receita conforme orientação da enfermagem do hospital.
Juliana Santos Brasil foi afastada do hospital. À Justiça, apresentou um vídeo alegando que o sistema de receita eletrônica teria trocado, sem que ela percebesse, adrenalina por inalação por adrenalina na veia.
O superintendente de tecnologia da informação (TI) do hospital afirma: “Sem ação do médico, o sistema não faz zero de forma automatizada.”
Perguntado se houve erro do sistema, ele diz: "Do sistema, a gente pode prometer que não foi", afirma João Alexandre de Araújo.
A médica conseguiu um habeas corpus preventivo para não ser presa durante as investigações. Seu jurista reafirmou que houve irregularidade no sistema de nos procedimentos seguintes.
"Foi uma multiplicidade de fatores, desde o momento que há uma quebra da dupla ou tripla checagem, a pouquidade de um farmacêutico", diz Felipe Braga, jurista de resguardo. "Eu não considero que ela errou".
O diretor médico do hospital, Guilherme Macedo, afirma que "toda a gestão está envolvida em elaborar planos de ações (…) para que o hospital evite situações semelhantes e com desfecho trágico porquê foi esse".
Benício era rebento único e faria 7 anos no dia de Natal.
"A gente sempre vai lembrar dele. Da muchacho que ele era. Uma muchacho pura. Meiga. Não era indisciplinado. O ser vivo mais puro que eu já encontrei, que eu conheci na humanidade", diz o pai.
Ouça os podcasts do Fantástico
ISSO É FANTÁSTICO
O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts predilecto. Todo domingo tem um incidente novo.

Comentários (0)

Faça login ou cadastre-se para participar da discussão.

Seja o primeiro a comentar!

Publicidade