A marca de chocolates Luzz Cacau, sediada na cidade de São Paulo (SP), já está presente em sete países — Suíça, Liechtenstein, Portugal, Espanha, França, Alemanha e Itália. Com uma série de prêmios, inclusive internacionais, a empresa também chamou atenção de distribuidoras nos Estados Unidos, que estavam interessadas em vender os produtos com exclusividade. Após escolher a empresa com que trabalharia, passou todo o primeiro semestre de 2025 organizando a operação e acertando os detalhes do contrato. Porém, na semana passada, recebeu a notícia de que as negociações seriam paralisadas.
Em entrevista a PEGN, a fundadora Josiane Luz, 35 anos, conta que recebeu o e-mail dois dias após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter oficializado a tarifa de 50% sobre parte dos produtos brasileiros na quarta-feira (30/7). "Estava com uma expectativa muito grande que o cacau e seus derivados, como o chocolate, também estivessem na lista dos produtos que foram excluídos dessa taxação mais alta, mas não foi isso que aconteceu”, diz a empreendedora de Iguaí (Bahia).
De acordo com ela, a expectativa era que a empresa, que fatura em torno de R$ 3 milhões anualmente, dobrasse de tamanho em um ano com a entrada no mercado norte-americano. “Nosso cliente compraria de uma vez, anualmente, a mesma quantidade que produzimos no ano. Seria uma grande oportunidade de crescimento”, afirma.
Filha, neta e bisneta de produtores de cacau convencional, ela decidiu trilhar um novo caminho após uma viagem a Madri (Espanha), onde percebeu o prestígio do chocolate brasileiro no exterior. De volta, formou-se técnica em cacau fino e produziu sua primeira leva de 500 kg, vendida por mais que o dobro do preço praticado por seu pai. Com um investimento inicial de R$ 60 mil de sua poupança e o valor do carro que tinha, fundou a Luzz Cacau no fim de 2019, adaptando o lançamento para o digital por causa da pandemia.
Desde então, a Luzz Cacau vem acumulando prêmios e reconhecimento no mercado nacional e internacional de chocolates finos. Entre as principais conquistas estão quatro medalhas no International Chocolate Awards 2024, nas categorias Américas e Mundial, com destaque para o chocolate ao leite 52% e o de doce de leite com coco. Em 2023, a marca também foi premiada pela Academy of Chocolate, em Londres (Inglaterra), com bronzes para três sabores diferentes. Ainda em 2020, o chocolate 52% ao leite levou bronze no Prêmio Bean to Bar Brasil.
Dados do Comexstat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram que, em 2024, foram exportados mais de US$ 175 milhões em chocolate para os Estados Unidos. No primeiro semestre deste ano, o valor já passou de US$ 111 milhões.
Para exportar para lá, Luz estava adaptando o negócio e investiu R$ 25 mil no processo. O valor foi gasto principalmente na adaptação das embalagens, com inscrições em inglês. “Como uma pequena empresa, qualquer valor que sai do nosso caixa já impacta muito a operação”, afirma.
“Tem um custo para registrar a nossa marca e seguir as normas de acordo com a Food and Drug Administration [FDA], mas já havia acertado que o nosso cliente arcaria com os custos. Então, faríamos o acerto com os nossos produtos”, diz a empreendedora. Também estava previsto, a partir do ano que vem, um aumento da capacidade produtiva da fábrica, que também venderia no formato de private label para o distribuidor.
No momento, a empreendedora ainda não sabe que rumo tomar, mas entende que a taxa de 50% torna a exportação para os EUA impossível. “Nosso cliente estava super animado e planejando conhecer as nossas fazendas de cacau esse ano. Ele gostou do nosso produto, mas não consegue arcar com os novos valores”, afirma Luz, acrescentando que chegou a cogitar absorver parte das tarifas — mas entendeu que isso não seria rentável no longo prazo.
“No fim, eu estaria pagando para trabalhar, então vi que é um esforço que não compensaria”, diz. A empreendedora está buscando outras opções de mercados internacionais e contando com o auxílio da Apex para direcionar a produção.
Ainda que a tarifa de exportação de chocolate para o mercado norte-americano caia nas próximas negociações, ela diz que não pretende que os Estados Unidos sejam sua prioridade. “Já marquei reuniões com meus dois distribuidores que atuam na Europa, e estou analisando as possibilidades do mercado asiático”, diz. “Espero que a situação nos Estados Unidos se resolva em algum momento, mas entendo que há um risco muito grande no momento.”