Em Belém (PA), pedir um sorvete da Cairu é mais do que um gesto simples: é um ritual carregado de identidade cultural. A empresa, hoje reconhecida como patrimônio imaterial do Pará, nasceu de forma modesta, em 1963, quando um bar familiar, que levava o mesmo nome, estava prestes a fechar as portas.
Naquele balcão, Ruth Henriques, bisavó de Roberto Bino, atual diretor e representante da quarta geração da família, viu o negócio cambalear após dois anos de operação. Nesse momento, surgiu a ideia de produzir picolés para complementar a renda. O improviso deu certo. Logo, os irmãos dela também passaram a vender as doces na porta das escolas de Belém. O bar acabou se mantendo em pé. Só deixou de funcionar em 1990, quando oficialmente abriu caminho para a sorveteria que se tornaria referência.
O diferencial que fez o negócio deslanchar veio quando a família decidiu apostar nos produtos típicos da região. Cupuaçu, bacuri, açaí, taperebá, castanha-do-pará e tantas outros passaram a compor receitas exclusivas. “O reconhecimento da Cairu vem da nossa capacidade de transformar os sabores da Amazônia em sorvete”, diz Bino.
A estratégia colocou a marca em outro patamar. Hoje, embora a empresa também produza opções mais tradicionais, como chocolate e pistache, os sabores regionais são o carro-chefe. O Carimbó, combinação de castanha-do-pará com doce de cupuaçu, ficou entre os 20 melhores do mundo, no Festival Mundial do Gelato, realizado na Itália em 2022.
Atualmente, a sorveteria conta com 14 lojas próprias e uma fábrica que produz 10 mil picolés produzidos por hora e até 10 litros de sorvete a cada dez minutos. A escala, no entanto, ainda é limitada. Por trabalhar com pequenos produtores locais e não usar conservantes nas receitas, a empresa, que hoje atua com 160 funcionários, enfrenta restrições logísticas para expandir além das fronteiras do Pará. Cada unidade fatura em média R$ 400 mil ao ano.
Investimento histórico para a COP30
Neste ano, Belém sediará a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), e a Cairu já se prepara para receber visitantes do mundo inteiro. Até outubro, a rede deve chegar a 20 unidades, com pontos no Aeroporto Internacional de Belém, no Parque da Cidade (onde ocorrerá a conferência) e no Porto Futuro 2, ao lado da Estação das Docas.
O investimento mais ousado é na nova loja da avenida Mundurucus, que terá sorveteria, café e padaria. O aporte, de até R$ 3 milhões, é o maior já feito pela empresa. “Estamos acelerando obras e planejando cada detalhe para que a Cairu esteja pronta. A COP é uma oportunidade histórica para mostrar a Amazônia em forma de sorvete”, afirma Bino.
Para ele, a conferência vai muito além do impacto nos negócios. “É uma chance de o mundo enxergar o Pará de forma diferente. Muita gente ainda não conhece a nossa realidade, a nossa gastronomia, o nosso povo. A COP vai abrir portas para novas conexões, e queremos estar preparados para receber essas pessoas com o que temos de melhor”, destaca.
O diretor também vê no evento uma oportunidade de aprendizado. “Assim como vamos mostrar nossa região para o mundo, vamos receber muitas ideias e experiências de fora. É um intercâmbio que pode ajudar não só a Cairu, mas também os pequenos produtores que trabalham com a gente. No fim das contas, todos saem fortalecidos”, avalia.
Patrimônio afetivo e cultural
O título de Patrimônio Cultural de Natureza Material e Imaterial do Pará foi concedido no ano passado em reconhecimento não apenas à tradição gastronômica, mas também ao vínculo da marca com os paraenses. “O povo se apropriou da Cairu como se fosse algo dele. Você não consegue falar mal da Cairu para um paraense”, diz o diretor, que viu toda a história do negócio se consolidando e hoje, aos 34 anos, toma a frente nas decisões.
Mais do que uma empresa familiar, a sorveteria virou símbolo de identidade. Entre 160 mil bolas de sorvete vendidas por mês, histórias de resistência e inovação se misturam. O marketing, ainda enxuto, nunca foi o principal motor de crescimento — o boca a boca e o orgulho local desempenharam papel fundamental na consolidação da marca.
Um futuro doce, mas desafiador
A Cairu ainda enfrenta obstáculos típicos de negócios geracionais em expansão: modernização da gestão, rotatividade de funcionários e dificuldades para garantir escala de produção sem perder qualidade. Mas, com a quarta geração da família já envolvida no comando e planos de ampliar até a base de fornecedores, o horizonte é promissor.
Outro ponto sensível é a ausência de conservantes nos sorvetes. Essa característica garante sabor e autenticidade, mas também torna o produto mais perecível e limita a logística de distribuição para fora do Pará. “Se eu mandar o mesmo sorvete daqui para São Paulo, ele não vai chegar com o mesmo sabor. Vai perder qualidade, e isso é algo que a gente não abre mão”, explica Bino.
Apesar disso, a empresa já recebe dezenas de pedidos de franquia por dia, vindos de diferentes partes do Brasil. “Não é falta de interesse em expandir. É que a gente precisa encontrar a fórmula certa para crescer sem comprometer nossa essência. Só vamos dar esse passo quando estivermos totalmente preparados”, completa o diretor.