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Experiências que recriam naufrágio do Titanic atraem multidões: é certo faturar em cima da

Os grandes salões internos do Titanic vão, aos poucos, sendo tomados pela água. Vídeos projetados no piso, no teto e nas paredes de um galpão no sul de Londr...

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 05/01/2026 às 18:31 · Atualizado há 1 dia
Experiências que recriam naufrágio do Titanic atraem multidões: é certo faturar em cima da
Foto: Reprodução / Arquivo

Os grandes salões internos do Titanic vão, aos poucos, sendo tomados pela água. Vídeos projetados no piso, no teto e nas paredes de um galpão no sul de Londres mostram móveis e estruturas desaparecendo sob as ondas.

Essa é uma das atrações centrais de The Legend of the Titanic: The Immersive Exhibition (A Lenda do Titanic: A Exposição Imersiva, em tradução livre), criada para fazer com que o público se sinta a bordo do transatlântico que naufragou em 1912.

A exposição busca fazer essa imersão com projeções de vídeo e trechos de realidade virtual (VR, na sigla em inglês). Os visitantes usam óculos especiais.

Na loja da exibição, há apitos para chamar atenção e cartões-postais do navio afundando cercado por icebergs.

Casais formam fila para posar diante de um fundo verde e recriar a famosa cena protagonizada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet no filme Titanic (1997), dirigido por James Cameron, na proa da embarcação.

Outros jogam videogames de "desvie do iceberg", em que é preciso conduzir o navio entre obstáculos de gelo, ou tomam prosecco no bar.

São de fato envolventes os recursos de realidade virtual, que permitem caminhar pelo convés sob o sol, percorrer os interiores luxuosos do navio e até descer em um submersível até os destroços.

Já a parte da experiência em que o visitante fica cercado por projeções em 360 graus do navio se enchendo de água parece de mau gosto e mais "voyeurística" do que educativa ou emocional.

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A exposição é bem avaliada no site TripAdvisor, com nota 4,2, e visitantes elogiam a tecnologia de realidade virtual, os painéis informativos e as narrativas apresentadas.

desde o momento em que atravessamos as portas

— Julie Akhtar, de Virginia Water, no condado de Surrey (Reino Unido), afirmou ter se sentido transportada e disse que o uso de VR a fez "se sentir parte" da vida a bordo do navio.

tirar uma foto posando como Kate Winslet e Leonardo DiCaprio pareceu um pouco comercial

— Sua única crítica foi o preço dos ingressos (£32 por adulto, cerca de R$ 237) e a sensação de que .

Sarah Mattock, de Brighton (Reino Unido), também ficou impressionada.

Eu já sabia que seria um pouco brega, mas sempre fui intrigada pelo Titanic desde jovem.

Essa é uma de pelo menos três experiências imersivas sobre o Titanic em cartaz no Reino Unido no momento.

Em Titanic: Echoes from the Past (Titanic: Ecos do Passado, em tradução livre), outra atração do gênero localizada no bairro de Camden, no norte de Londres, o público presencia o momento em que o navio colide com o iceberg.

Diferentemente de The Legend of the Titanic, trata-se de uma experiência apenas com realidade virtual.

Com meus óculos posicionados, fico frente a frente com membros da tripulação.

Mais adiante, caminho em direção à proa, até que a experiência me leva àquela noite fatídica.

A música orquestral cresce à medida que o navio se aproxima lentamente do iceberg, até que o impacto arremessa trabalhadores ao chão.

A tripulação repete "vamos lá, vamos conseguir". Em seguida, ouve-se o gelo raspando ao longo do casco.

A história do Titanic é apenas um dos muitos episódios históricos que hoje podem ser revisitados em formato imersivo.

Outra atração em cartaz na capital britânica aborda uma das erupções vulcânicas mais destrutivas da história.

A experiência The Last Days of Pompeii (Os Últimos Dias de Pompeia, em tradução livre), exibida no leste de Londres, recria a aniquilação da cidade romana pela atividade do Monte Vesúvio em 79 d.C.

Uma projeção de oito metros de altura mostra a cidade em chamas, fazendo com que o público se sinta cercado por cinzas e brasas queimando.

Com o recurso da realidade virtual, visitantes fazem um passeio de biga (tipo de veículo puxado por cavalos) por uma arena repleta de espectadores; em outro momento, circulam pela casa de uma família na noite do desastre.

Também fui convidado a ficar em pé e olhar para uma câmera instalada no teto para posar para uma foto, disponível para compra, na qual minha imagem aparecia sobreposta a um fundo de lava derretida — dando a impressão de que eu emergia do topo do monte Vesúvio.

O mercado global do entretenimento imersivo foi estimado em mais de US$ 114 bilhões (aproximadamente R$ 631,71 bilhões) em 2025.

Projeções indicam que o valor pode chegar a US$ 412 bilhões (cerca de R$ 2,28 trilhões) até 2030.

No Reino Unido, as buscas pelo termo "experiência imersiva" na plataforma de eventos Eventbrite cresceram 83% no último ano, segundo um porta-voz ouvido pela BBC.

de mídia e de performances estão

— Formas tradicionais e "passivasestagnadas ou em declínio", enquanto "experiências centradas no engajamento e na interatividade dos participantes continuam a crescer", diz o relatório "Evolving Immersive: The 2025 Immersive Entertainment & Culture Industry Report", publicado pelos institutos Gensler Research Institute e pelo Immersive Experience Institute.

Experiências imersivas sobre o Titanic estão em cartaz também em São Paulo, Los Angeles, Cincinnati, Hamburgo, Singapura, Copenhague e muitas outras cidades ao redor do mundo.

O navio com destino trágico se consolidou como um dos temas mais populares desse tipo de atração.

O enorme transatlântico era considerado inafundável, e o fato de sua viagem fatídica ter vitimado algumas das pessoas mais ricas do planeta, justamente aquelas que raramente enfrentam dificuldades, chama atenção por si só.

É uma das tragédias mais emblemáticas, um símbolo da fragilidade da humanidade diante do imenso poder da natureza

— afirmou Tim Maltin, historiador e pesquisador do Titanic.

Uma das frases citadas [em Echoes from the Past] é 'todos nós somos passageiros do Titanic', e isso é verdade em certa medida. A história fala da própria condição humana.

Desde a inauguração, em fevereiro, mais de 45.000 pessoas colocaram os óculos de realidade virtual para vivenciar Echoes from the Past, segundo os organizadores, em informações repassadas à BBC.

Ainda assim, há quem critique esse tipo de experiência imersiva centrada em desastres, alegando que ela explora tragédias históricas reais ao transformá-las em entretenimento.

Críticas desse tipo não são novidade. No passado, elas já foram dirigidas a produções que vão do próprio filme Titanic a videogames como a série Call of Duty, que permite aos jogadores participar de conflitos históricos.

O caráter profundamente imersivo dessas novas experiências, no entanto, pode intensificar o debate sobre a adequação desse tipo de atração.

Em sua resenha de duas estrelas da exposição The Legend of the Titanic, Anna Moloney, do jornal londrino City AM, fez críticas à ética da atração.

território entre a educação e o entretenimento

— Em entrevista à BBC, ela afirmou que a exibição se coloca no .

Mas, de jogos de 'desvie do iceberg' a sessões de fotos sorridentes diante da câmera, fica claro qual dos dois é priorizado. Nenhuma exposição sobre uma tragédia deveria ser divertida; passar por uma pedra solene que exibe os nomes de todos os que perderam a vida na tragédia para, em seguida, ser conduzido a uma loja que vende apitos de emergência como lembrança beira o grotesco

— avalia Moloney.

Os criadores de The Legend of the Titanic não estavam disponíveis para falar com a BBC.

Karl Blake Garcia, diretor do espaço de Titanic: Echoes from the Past, reconhece que há questões sérias na forma de contar histórias sobre tragédias reais.

Não estou aqui para desqualificar nenhuma outra experiência

— afirmou, "mas consigo identificar qualidade quando a vejo… Echoes from the Past não é sobre truques ou sobre sensacionalizar uma tragédia. De vez em quando, algum visitante pergunta: 'Ah, eu queria ver o navio afundar', mas achamos [essa ideia] um pouco de mau gosto. É possível vivenciar o impacto do iceberg, mas não vamos mostrar o navio afundando e centenas de pessoas perdendo a vida. Simplesmente não é isso que queremos fazer."

O acadêmico Adam Heardman, autor do artigo "Against Immersion" ("Contra a Imersão", em tradução livre), publicado na revista Art Monthly, mostra-se cético quanto ao valor das experiências imersivas em geral.

um desenvolvimento sinistro na paisagem cultural urbana

— Em entrevista à BBC, ele afirmou que a ascensão desse tipo de atração representa .

Para Heardman, essas exibições estão mais ligadas a uma lógica de "geração de dinheiro agressiva" do que à oferta de uma experiência cultural valiosa.

não é difícil entender por que transformar a morte trágica de mais de mil pessoas no mar em uma atração turística de grande apelo pode ser um pouco exploratório

— Sobre as experiências relacionadas ao Titanic, em particular, ele diz que .

simplesmente grande, barulhenta e tecnológica, e tratar de um tema que fascina as pessoas há um século

— Andrzej Lukowski, editor de teatro da revista Time Out, afirma que a exposição The Legend of the Titanic é bem-sucedida por ser .

E existe o argumento de que as pessoas sempre foram atraídas, de forma sombria, por tragédias.

No livro Morbidly Curious (Curiosidade Mórbida, em tradução livre), o psicólogo Coltan Scrivner sustenta que a tecnologia apenas criou novas maneiras de satisfazer esse fascínio.

Podemos criar simulações imersivas e envolventes de desastres que atraiam milhões de pessoas

— disse à BBC.

Isso não significa que hoje as pessoas estejam mais interessadas no macabro; apenas que esse interesse se tornou mais acessível. Minhas pesquisas indicam que a curiosidade mórbida é um traço perfeitamente normal, comum e variável entre as pessoas, como qualquer outro traço de personalidade.

Sob essa perspectiva, ele considera que experiências imersivas sobre desastres "não são antiéticas".

questionáveis — como um texto que afirma que

— Informações exibidas em painéis da exposição The Legend of the Titanic apresentam diversos erros de digitação e de espaçamento, além de "fatospara os passageiros mais jovens e também para os solteiros, a principal diversão a bordo do Titanic, e de todos os transatlânticos, era flertar".

Pessoas nas redes sociais também têm apontado imprecisões.

O material promocional de The Legend of the Titanic mostra o navio colidindo com o iceberg pelo lado de bombordo, em uma noite nublada e com o mar relativamente agitado.

, escreveu um usuário no Facebook,

— "Chamem-me de pedantemas o Titanic raspou o iceberg pelo lado de estibordo, não pelo bombordo, como retratado na arte de vocês. Ah, sim, e estava escuro, com o céu limpo".

Representantes da exposição não responderam ao pedido de comentário da BBC Culture sobre essas questões de precisão.

Richard Parry, diretor-executivo da Experience UK, entidade setorial encarregada de impulsionar a chamada "economia da experiência" no país, afirma não ter conhecimento de iniciativas para estabelecer diretrizes éticas para exposições imersivas históricas, como aquelas que existem para museus — seja em relação à qualidade, seja à adequação do conteúdo.

Para ele, o próprio mercado acabará por "se autorregular" quanto ao que é ou não uma fonte apropriada de material.

Em meio aos questionamentos sobre o valor dessas experiências, uma coisa parece certa: elas devem se tornar cada vez mais presentes no cenário cultural.

não há limite para o que pode ser reproduzido se houver demanda

— Como resume Parry, .

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