O regulador de aviação da Índia advertiu a Air India por violar regras de segurança depois que três de suas aeronaves Airbus voaram apesar de estarem com as verificações de equipamentos de emergência atrasadas, e por demorar a resolver o problema, mostram documentos do governo.
As notificações de advertência e um relatório de investigação, ambos revisados pela Reuters, não estavam de forma alguma relacionados ao acidente da semana passada com um avião Boeing 787 da Air India que matou 241 pessoas que estavam a bordo, e apenas uma sobreviveu, e foram enviados dias antes desse incidente.
No relatório, a Direção Geral de Aviação Civil (DGCA) disse que inspeções pontuais em maio em três aviões Airbus da Air India descobriram que eles foram operados apesar de as inspeções obrigatórias estarem vencidas no “equipamento de emergência crítico” das escorregadeiras de evacuação.
Em um caso, o órgão de fiscalização descobriu que a inspeção de um jato Airbus A320 foi adiada por mais de um mês antes de ser realizada em 15 de maio. Dados do AirNav Radar mostram que, durante o atraso, o avião voou para destinos internacionais como Dubai, Riad e Jeddah.
Outro caso, envolvendo um Airbus A319 usado em rotas domésticas, mostrou que as verificações estavam com mais de três meses de atraso, enquanto um terceiro mostrou um atraso de dois dias na inspeção.
“Os casos acima indicam que as aeronaves foram operadas com equipamentos de emergência vencidos ou não verificados, o que é uma violação dos requisitos padrão de aeronavegabilidade e segurança”, diz o relatório da DGCA.
A Air India “falhou em apresentar respostas de conformidade em tempo hábil” às deficiências levantadas pela DGCA, “evidenciando ainda mais um fraco controle processual e de supervisão”, acrescentou.
A Air India, que foi adquirida pelo Tata Group em 2022, disse em comunicado que estava “acelerando” a verificação de todos os registros de manutenção, incluindo as datas das escorregadeiras de evacuação, e que concluiria o processo nos próximos dias.
Em um dos casos, disse a Air India, o problema veio à tona quando um engenheiro da AI Engineering Services “acionou inadvertidamente uma escorregadeira de evacuação durante a manutenção”. A DGCA e a Airbus não responderam aos questionamentos da Reuters.
As verificações nas escorregadeiras de evacuação são “uma questão muito séria. Em caso de acidente, se elas abrirem, pode levar a ferimentos graves”, disse Vibhuti Singh, ex-especialista jurídico do Bureau de Investigação de Acidentes Aeronáuticos do governo.
A DGCA disse em seu relatório que os certificados de aeronavegabilidade para aeronaves que perdem as verificações obrigatórias foram “considerados suspensos”.
As notificações de advertência e o relatório foram enviados por Animesh Garg, vice-diretor de aeronavegabilidade do governo indiano, ao diretor-presidente da Air India, Campbell Wilson, bem como ao gerente de aeronavegabilidade continuada, gerente de qualidade e chefe de planejamento da companhia aérea, mostraram os documentos.
Um advogado de aviação indiano disse que tais violações normalmente atraem penalidades monetárias e civis tanto para executivos individuais quanto para a companhia aérea.
Wilson disse à Reuters no ano passado que a escassez global de peças estava afetando a maioria das companhias aéreas, mas que o problema era “mais agudo” para a Air India, pois seu “produto é obviamente muito mais datado”, com muitos aviões não renovados desde que foram entregues em 2010 e 2011.
O regulador indiano, como muitos no exterior, frequentemente multa companhias aéreas por falhas de conformidade. O vice-ministro de Aviação da Índia disse ao parlamento em fevereiro que as autoridades haviam advertido ou multado companhias aéreas em 23 ocasiões por violações de segurança no ano passado.
Cerca da metade delas envolveram a Air India e a Air India Express, incluindo em um caso por “entrada não autorizada na cabine de comando”. A maior multa foi de US$ 127 mil para a Air India por “oxigênio insuficiente a bordo” durante um voo para São Francisco.
O acidente da semana passada, cujas causas ainda estão sendo investigadas, desafiará ainda mais as tentativas da Air India de reconstruir sua imagem, após anos de críticas de viajantes por mau serviço. O presidente do conselho da Air India, N. Chandrasekaran, disse aos funcionários na segunda-feira que o acidente deveria ser um gatilho para construir uma companhia aérea mais segura, instando os funcionários a permanecerem firmes em meio a quaisquer críticas.
Em seu relatório, a DGCA também disse que várias aeronaves da Air India verificadas por autoridades tinham documentação de registro desatualizada. A Air India disse à Reuters que todas as aeronaves, exceto uma, cumpriam tais requisitos e que isso “não representa impacto” para a segurança.
O relatório de investigação da DGCA criticou a companhia aérea pelo que descreveu como “supervisão interna inadequada”. “Apesar das notificações prévias e das deficiências identificadas, os departamentos internos de qualidade e planejamento da organização falharam em implementar ações corretivas eficazes, indicando uma falha de controle sistêmico”, afirmou.