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O mito do gás como combustível de transição está morto | ESG

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 07/11/2024 às 06:30 · Atualizado há 4 dias

Por anos, lobistas dos combustíveis fósseis venderam o gás como um “combustível de transição” mais limpo, capaz de conduzir o mundo rumo a um futuro sustentável

Mas a ciência agora desmascara esse mito: Um novo estudo da Universidade Cornell revisado por pares e publicado na renomada revista científica Energy Science & Engineering revela que o gás de origem fóssil é em certos casos até mais poluente que o carvão.

O estudo deixa claro que investir no gás como "combustível de transição" é uma péssima idéia. O efeito pode ser oposto ao propagandeado, aumentando as emissões de gases de efeito estufa e se constituindo em um passivo para empresas de energia que assumiram compromissos com a descarbonicação de seus portfólios num cenário de transição para um mundo de emissões líquidas zero (Net Zero).

As conclusões do estudo são contundentes. Ao analisar todo o ciclo de vida do gás — extração, processamento, liquefação, transporte, regaseificação e consumo final — o impacto climático do gás se revela desastroso.

Quando observado no horizonte de 20 anos, o gás emite 33% mais gases de efeito estufa por unidade de energia do que o carvão. Em outras palavras, migrar para o gás não é uma solução sustentável, é reforçar a crise climática.

Na análise dos pesquisadores de Cornell, descobriu-se a alta intensidade de emissões de gases de efeito estufa do gás em função do vazamento de metano — que tem potencial de aquecimento do planeta 80 vezes maior do que o gás carbônico durante 20 anos após sua emissão.

Esses vazamentos ocorrem em toda a cadeia de produção — desde os poços e gasodutos até as instalações de liquefação, que resfriam o gás até que ele atinja o estado líquido para transporte. Somente essa etapa inicial já responde por quase metade das emissões totais do gás, antes mesmo de ser exportado.

O transporte do gás apenas agrava o problema. Embora os navios-tanque modernos sejam mais eficientes no consumo de combustível usado para propulsão, o estudo revela que eles também sofrem de um problema crítico de “vazamento de metano,” onde uma parte escapa sem ser queimado, direto para a atmosfera. A indústria entende que o vazamento é marginal e inexpressivo frente aos volumes produzidos e consumidos, mas os cientistas descobriram que os montantes vazados são significativos para o aquecimento global. Surpreendentemente, os navios mais “eficientes” acabam liberando mais metano do que as embarcações mais antigas, anulando qualquer suposto ganho ambiental.

O mito do gás como combustível para transição destaca as emissões de carbono reduzidas durante a queima final, e propositadamente ignora o impacto devastador do metano vazado nas fases anteriores.

Essa evidência é inequívoca: Os benefícios climáticos do gás são uma ilusão. A importação de gás amplifica a crise climática. Essa não é a narrativa que o setor quer que o público conheça, mas a ciência não deixa dúvidas: O gás não é um combustível de transição. Ele é um passivo, um combustível fóssil com um perfil de emissões tão ou mais alto que o carvão e o petróleo.

Para investidores e líderes empresariais, isso representa um alerta claro: Investir no gás como um “combustível de transição” é apostar em um ativo arriscado, que desvia investimentos de soluções realmente sustentáveis, como as energias renováveis.

A atratividade do gás sempre esteve mais ligada à retórica do que aos fatos, e este estudo desmascara esse mito de maneira definitiva.

O momento exige que deixemos de lado as ilusões propagadas pelos lobbies dos fósseis e enfrentemos a realidade. O gás não é uma ponte para um futuro mais limpo; é um desvio que pode custar caro e comprometer a missão de limitar o aquecimento global neste século.

A decisão agora deve ser guiada pela ciência, não pela propaganda, para construir um caminho seguro rumo ao Net Zero e a uma economia verdadeiramente sustentável, livre dos riscos ocultos dos combustíveis fósseis e de seus mitos perigosos.

Gustavo Pinheiro é sênior associate do think-tank internacional E3G, sócio do Grupo Triê e membro dos Conselhos da Climate Ventures, AMAZ - Aceleradora de Impacto e da Amazon Investor Coalition, technical expert do Finance Sector Expert Group da Race to Zero e do Advisory Board da Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ).

(*) Disclaimer: Este artigo reflete a opinião do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

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