O aumento dos relatos de falsificações e irregularidades na venda de medicamentos para obesidade e diabetes contendo semaglutida (princípio ativo de Ozempic, Wegovy ou Rybelsus) e tirzepatida (Mounjaro) foi tema do painel que encerrou a Jornada Valor Econômico de Jornalismo em Saúde. O curso, realizado na sede da Editora Globo, em São Paulo, reuniu uma turma de jornalistas do setor que conversou com médicos e especialistas sobre pautas importantes da área da saúde.
A convite da Novo Nordisk, o presidente executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), Renato Porto, introduziu o assunto explicando sobre a complexa jornada de inovação que envolve a produção de medicamentos, que demanda altos investimentos e normas rígidas de controle sanitário. “As farmacêuticas chegam a aplicar cerca de 30% de suas receitas em pesquisa e desenvolvimento”, afirmou.
Para contextualizar, Ana Miriam Fukui Dias, diretora de legal, compliance e qualidade da Novo Nordisk no Brasil, explicou que uma substância segura como a semaglutida pode levar décadas para ser desenvolvida. “De todos os medicamentos que estão em estudo, costumamos ter apenas 10% de taxa de sucesso. Ou seja, o investimento é muito alto e somos muito rigorosos para garantir segurança e eficácia”, justificou.
Entretanto, Porto explicou que o cuidado vai além dessa etapa, estendendo a atenção à cadeia farmacêutica, que é longa e fechada. “Tudo começa com o desenvolvimento, passa pela fabricação do insumo fármaco e produto acabado e se finaliza com a distribuição e chegada ao serviço de saúde. Qualquer variação em um desses processos pode colocar o consumidor em risco. Por isso, todos os envolvidos cumprem requisitos muito específicos”, frisou. Nesse sentido, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) trabalha com regras rígidas, analisando a cadeia completa.
Na contramão desse cuidado, o presidente executivo da Interfarma relatou casos frequentes de uso inadequado dos medicamentos que chegam ao Brasil por importação de maneira indevida. Mais do que a questão legal, os insumos precisam de uma cadeia fria, ou seja, devem ser conservados com controle rígido de temperatura, ou podem perder a eficácia.
Outra face do problema é a questão da manipulação. As medicações de controle de obesidade e diabetes da nova geração ainda estão sob patente, portanto, os princípios ativos não poderiam ser usados nas farmácias de manipulação em larga escala, como tem acontecido.
“A função da farmácia de manipulação é suprir o que a indústria farmacêutica não tem disponível, usando os princípios aprovados. E não é o caso, já que usam ativos sem autorização ou cópias sintéticas sem estudos”, alertou Mateus Dornelles Severo, endocrinologista e metabologista, diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Em relação aos perigos de consumir os medicamentos falsificados ou irregulares, Severo destacou as possibilidades de eventos danosos à saúde devido à alta concentração de impurezas e doses erradas; ao consumo de substâncias desconhecidas ou trocadas, já que não há regulamentação na fabricação; e ao problema de vias de administração não estudadas.
“Estamos vendo um grande aumento de relatos de eventos adversos ligados ao uso de medicamentos irregulares. Do ponto de vista legal, relatamos os casos para a Anvisa e, do jurídico, tomamos ações para prevenir as infrações de patente”, comentou Ana, da Novo Nordisk.
Nesse sentido, a autarquia estabeleceu recentemente novas regras para a venda da classe de medicamentos agonistas do GLP-1. Em junho, entrou em vigor a norma que determina a obrigação de receita em duas vias, com retenção da original, no momento da compra.
Sobre a manipulação, a regulamentação da Anvisa esclarece que a prática em farmácias magistrais de formulações com semaglutida e tirzepatida só é permitida se existirem medicamentos industrializados registrados que contenham esses ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs). Nesse caso, deve se observar a regra de que a manipulação não vise substituir uma apresentação já existente no mercado.
Movimento #TôFora tira dúvidas sobre medicamentos com origem duvidosa
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada dez medicamentos em países de baixa e média renda é falsificado. Diante desse risco, a Novo Nordisk lançou neste ano o movimento #TôFora. A campanha é apoiada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e outras 20 organizações da sociedade civil e associações de pacientes.
A iniciativa, que está sendo divulgada nas redes sociais e veículos de mídia, além de uma página no site da Novo Nordisk, orienta as pessoas na identificação de situações de possíveis irregularidades e sobre como atuar em casos suspeitos. A ação também alerta para os perigos do uso de remédio sem a devida recomendação profissional.
Um dos pontos destacados é a atenção ao preço dos produtos. “Os valores dos medicamentos no Brasil são regulados, determinados pelo governo e podem ser consultados no site da Anvisa. Portanto, se a oferta tiver um preço muito inferior, desconfie”, alertou Renato Porto, presidente executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).
Na página da campanha, a Novo Nordisk lista a diferença entre os medicamentos falsificados e os irregulares. Os primeiros são produzidos ilegalmente, podendo conter erros na composição e substâncias perigosas. Já os irregulares, de acordo com a Anvisa, são os que não seguem as regras de segurança e qualidade. Porém, ambos colocam a saúde em risco.
“Sem dúvida, há uma mudança de padrão e funcionamento da sociedade, e nós precisamos estar atentos, criticar os processos e levar dados confiáveis às pessoas. O mais importante é que elas tenham acesso à informação, consciência de que é preciso evitar esse caminho e que não vale a pena pagar o preço com a própria saúde”, concluiu Porto.