Um dos presos pela Polícia Federal (PF) nesta terça-feira (19), o general de Brigada na reserva Mário Fernandes, é apontado como um dos “militares mais radicais” do grupo que planejou o suposto golpe de Estado para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele atuou como chefe substituto da Secretaria-Geral da Presidência da República durante o governo Bolsonaro, entre outubro de 2020 e janeiro de 2023.
Segundo a PF, Fernandes foi o responsável por um “detalhado planejamento operacional” do plano “Punhal verde-amarelo”, que teria como objetivo matar Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A investigação identificou um arquivo Word nos objetos apreendido com Fernandes, que continha “um verdadeiro planejamento com características terroristas, no qual constam descritos todos os dados necessários para a execução de uma operação de alto risco”.
O documento “traz em formato de tópicos o planejamento de uma operação clandestina, com demandas de reconhecimento operacional a serem realizadas, demandas para preparação e condução da ação, com indicação dos recursos necessários, demandas de pessoal a ser utilizado e condições de execução”.
O arquivo também continha tópicos relacionados à munição que seria utilizada na operação. Segundo a PF, o arsenal previsto “revela o alto poderio bélico”, com uso de pistolas, fuzis, metralhadoras, lança granada e lança rojão. “São armamentos de guerra comumente utilizados por grupos de combate”, diz o relatório.
Segundo os investigadores, o documento detalhou o efetivo necessário para a execução do plano, e está em consonância com a operação que foi chamada de “Copa 2022”, e empregou seis pessoas em Brasília para, provavelmente, capturar e executar Moraes no dia 15 de dezembro de 2022.
“O contexto de emprego de armamentos extremamente letais, bem como de uso de artefato explosivo ou envenenamento revelam que o grupo investigado trabalhava com a possibilidade de assassinato do ministro Alexandre de Moraes”, concluiu a PF.
De acordo com os investigadores, o documento encontrado tinha um tópico que descrevia os “Danos colaterais passíveis e aceitáveis”. “Claramente para os investigados a morte não só do ministro, mas também de toda a equipe de segurança e até mesmo dos militares envolvidos na ação era admissível para cumprimento da missão de ‘neutralizar’ o denominado ‘centro de gravidade’, que seria um fator de obstáculo à consumação do golpe de Estado.”
A PF apontou ainda que Fernandes esteve diversas vezes no acampamento em frente ao quartel-general do Exército, em Brasília, mesmo enquanto ocupava um cargo oficial no Palácio do Planalto. Os dados extraídos do celular do general “evidenciam que a atuação dele nesse período não se resumia ao mero comparecimento pessoal no acampamento”.
Uma das mensagens indica que o militar teria conversado pessoalmente com Bolsonaro, na mesma época que o então presidente apresentou a chamada “minuta do golpe” aos comandantes das Forças Armadas, em uma reunião do Palácio da Alvorada, em 8 de dezembro.
Uma das preocupações externadas por ele é que o golpe poderia ser frustrado se eles esperassem muito tempo para agir, já que, a partir do dia 20 de dezembro, o Comando Militar seria “passado” para militares indicados por Lula, citado na mensagem como “eventual governo do presidiário”.
Um dos seus interlocutores era o tenente-coronel Mauro Cid, então ajudante de ordens de Bolsonaro. Em uma das mensagens, ele contou que estava atuando para orientar “tanto o pessoal do agro quanto caminhoneiros” que estão acampados em frente ao Exército. Ele pede então para que o assunto seja levado ao então presidente, segundo a PF, “para evitar que eventuais ações do Poder Judiciário atinjam os manifestantes golpistas presentes no acampamento”.
Como resposta, Mauro Cid informa que levará a questão a Bolsonaro, e diz que ele está esperando, para ver os apoios que tem. Ele, no entanto, pondera “o curto tempo para a consumação do golpe”, afirmando que “teria que ser antes do dia 12 [de dezembro de 2022]”.
“O contexto das mensagens evidencia que Mário Fernandes era o ponto focal do governo de Jair Bolsonaro com os manifestantes golpistas. Além de receber informações, também servia como provedor material, financeiro e orientador dos manifestantes antidemocráticos instalados nas adjacências do QG-Ex em Brasília/DF, que teve papel fundamental na tentativa de golpe de Estado perpetrada no dia 08/01/2023”, escreveu a PF.
Outro preso pela PF nesta terça-feira, o tenente-coronel Hélio Ferreira Lima matinha em seus arquivos uma “planilha detalhada” com informações sobre o planejamento do suposto golpe de Estado.
Segundo os investigadores, esse documento indica que o golpe seria motivado pela ideia de que houve fraude nas eleições de 2022 e reunia “medidas direcionadas a investigação e punição de envolvidos nas supostas irregularidades evidenciadas no processo eleitoral”. Na época, Moraes era presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável por organizar o pleito.
“Trata-se de um planejamento estratégico que tinha como objetivo final um golpe de Estado, visando anular o pleito presidencial de 2022, com fundamento na falsa narrativa disseminada pela organização criminosa de vulnerabilidade e fraude no sistema eletrônico de votação, com o objetivo de manter o então presidente da República, Jair Bolsonaro no poder”, disse a PF.
De acordo com a investigação, “as ações ainda suprimiriam o livre exercício da cúpula do poder Judiciário, mediante a prisão de ministros do STF e de agentes públicos que cumprissem suas ordens judiciais”.
Source link