Publicidade
Capa / Econômia

Estudos mostram tamanho do desafio ambiental do país | Opinião

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 25/06/2025 às 20:12 · Atualizado há 3 dias
Estudos mostram tamanho do desafio ambiental do país | Opinião
Foto: Reprodução / Arquivo

Os rios dos principais biomas brasileiros perdem fluxo, a vegetação está mais seca e o fogo provocou destruição recorde em 2024, em um círculo vicioso que tende a se agravar e prenuncia tempos difíceis para a agricultura brasileira. Dois estudos, da Ambiente Media e do MapBiomas, mostram a interação das queimadas e da exploração exaustiva dos solos, que está aniquilando a Amazônia e o Cerrado, no qual se concentram as nascentes das principais bacias hidrográficas brasileiras. A conclusão de ambos é a mesma: o aquecimento global é uma parte importante, mas menor, diante da ação humana. A maior parte dos levantamentos que estão sendo divulgados no ano da COP30 mostra um panorama ecológico desolador para um país que se pretende vanguarda ambiental.

A destruição pelo fogo atingiu um pico no ano passado, com 30 milhões de hectares queimados, ou 62% acima da média histórica, revelou o primeiro Relatório Anual do Fogo, elaborado pelo MapBiomas. Mais da metade da área queimada (52%) se localiza na Amazônia, com 15,6 milhões de hectares atingidos. Não está sozinha — ela e o Cerrado concentram 86% dos territórios calcinados no país. “As áreas queimadas que marcaram o bioma em 2024 são resultado da ação humana, especialmente em um cenário agravado por dois anos consecutivos de seca severa”, diz o coordenador do mapeamento do bioma, Felipe Martenexen.

Chama a atenção, em primeiro lugar, a extensão dos incêndios ao longo dos anos. Um quarto do território nacional queimou pelo menos uma vez entre 1985 e 2024 — 206 milhões de hectares foram afetados nos seis biomas. Deles, o Cerrado foi a principal vítima recorrente do fogo, com 3,7 milhões de hectares atingidos 16 vezes em 40 anos. Proporcionalmente, porém, os danos foram maiores no Pantanal. O bioma teve 3 em cada 4 hectares queimados duas vezes ou mais no período. Quase todos os incêndios (93%) atacaram vegetação nativa, e o bioma teve a maior prevalência de queimadas superiores a 100 mil hectares (19,6%).

Não só o fogo devorou mais áreas, como mudou seu alvo, que migrou em 2024 para as formações florestais, as mais afetadas, com 7,7 milhões de hectares, com alta de 287% em relação à média. Pior ainda, até o ano passado, a maior parte das áreas queimadas (27%) possuía entre 10 e 250 hectares. Em 2024, 29%, ou quase um terço, foram atingidas por megaincêndios que se alastraram por mais de 100 mil hectares. A devastação se agravou nos últimos anos, com a ocorrência de fogo nos últimos 10 anos (2014-23) por 43% de toda a área queimada desde 1985.

O ano passado foi muito ruim para a Mata Atlântica, que teve o recorde de 1,2 milhão de hectares queimados, a maior perda em um ano desde 1985. Os números empalidecem perto do que ocorreu na Amazônia, com mudança qualitativa da destruição pelo fogo. A vegetação florestal, com 6,7 milhões de hectares, foi a mais afetada, superando a queima das pastagens, tradicionalmente mais extensas.

A destruição da vegetação nativa trouxe secas alarmantes à maior bacia fluvial do planeta, a amazônica. Da mesma forma, está reduzindo a vazão dos rios que dependem de nascentes no Cerrado, a caixa d’água dos biomas brasileiros. A Ambiente Media examinou meio século de dados para concluir que a vazão de segurança dos rios do Cerrado (seu volume mínimo em 90% do tempo) caiu 27% desde a década de 1970 (“Folha de S. Paulo”, 24 de junho). O bioma abastece 8 de 12 regiões hidrográficas e rios vitais como o Araguaia, Parnaíba, São Francisco, Paraná, Tocantins e Taquari. Metade da vegetação original da savana mais biodiversa do mundo, segundo o estudo, foi removida.

Os efeitos dos desequilíbrios ecológicos, com a expansão acelerada da soja na região, foram a redução de 21% das chuvas e aumento de 8% da evapotranspiração, em um ciclo nocivo que se realimenta. Para Yuri Salmona, cientista coordenador do relatório, a produção de commodities com base na irrigação (operam no bioma e 80% dos pivôs centrais em operação no país) é o ator principal das transformações. “Em segundo lugar vêm as mudanças climáticas”, afirma.

As consequências se espalham pelos biomas. O Pantanal depende totalmente da água dos rios com nascentes no Cerrado e sofre com secas bravas e fogo inclemente. A maior redução das vazões, de 50%, é a do rio São Francisco, com 93% das águas abastecidas pelo bioma. Nele, a situação se repete: as chuvas diminuíram 28% desde os anos 1970 até 2021 e a evapotranspiração aumentou 11%. A bacia do Rio Parnaíba (divisa Maranhão e Piauí) teve a maior redução da pluviosidade de todas, 38%.

Os estudos servem para reiterar o tamanho do desafio ambiental e orientar a resolução dos problemas. O relatório do MapBiomas constatou que há alta concentração do fogo — 72% da área é queimada de agosto a outubro, com 33% dos episódios ocorrendo em setembro. Isso torna previsíveis a época das ações de combate, que precisam de mais recursos e de esforço conjunto com os Estados, que se voltou a ser feita no atual governo, após a política de terra arrasada do governo Bolsonaro.

Comentários (0)

Faça login ou cadastre-se para participar da discussão.

Seja o primeiro a comentar!

Publicidade