A Convenção do Patrimônio Mundial da Unesco foi adotada em 1972 para promover a cooperação internacional e proteger bens de valor universal. Mas pode se tornar combustível para disputas políticas.
Pouco antes da disputa de fronteira entre Tailândia e Camboja se transformar em conflito aberto no final de julho, os dois países entraram em choque verbal sobre um templo budista que estava sendo construído na Tailândia. A estrutura é muito semelhante a Angkor Wat, o famoso templo budista que é Patrimônio Mundial no Camboja, o que alimentou acusações de cópia.
Em questão está o Wat Phu Man Fah, na província de Buriram, no nordeste da Tailândia. O local de 200 por 150 metros, com estruturas construídas com blocos de arenito, tem muito em comum com Angkor Wat, desde estátuas de naga — uma serpente divina mítica — e esculturas nas paredes até o corredor ao redor do edifício principal.
Angkor Wat, construído no século XII, é um símbolo do Império Khmer, que já controlou grande parte do Sudeste Asiático. É um tesouro para a maioria étnica Khmer do Camboja e aparece na bandeira nacional do país.
A disputa com o Wat Phu Man Fah eclodiu após um confronto em território disputado em maio, que provocou um desgaste dramático nos laços entre o Camboja e a Tailândia, com o sentimento público de cada país em relação ao outro se deteriorando. Para o Camboja, o templo parecia uma provocação da Tailândia.
Em uma sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco em julho, a ministra da Cultura e Belas Artes do Camboja, Phoeurng Sackona, classificou o projeto como um flagrante roubo cultural, afirmando que o templo é uma imitação antiética e um precedente perigoso que mina o valor dos Patrimônios Mundiais.
O governo tailandês nega que o Wat Phu Man Fah esteja copiando Angkor Wat. Afirma que o templo se baseia em ruínas e tradições da Tailândia e não tem a intenção de criar ainda mais divisões entre os dois países.
A Tailândia foi fortemente influenciada pelo Império Khmer e possui inúmeras ruínas de edifícios Khmer. Alguns estão espalhados ao longo da fronteira entre Tailândia e Camboja — uma posição que os torna propensos a se tornarem pontos de conflito em disputas por legitimidade cultural.
Após o início da guerra verbal sobre Wat Phu Man Fah, os visitantes ao templo aumentaram exponencialmente.
"Quase não havia fiéis até recentemente, mas mil pessoas o visitam aos sábados e domingos agora", disse ao “Nikkei Asia” uma que mora e trabalha perto de Wat Phu Man Fah. Muitos foram motivados por sentimentos de patriotismo, disse ela.
O abade-chefe expressou preocupação com a situação, afirmando que o objetivo do projeto era incentivar uma fé mais profunda.
"Estou feliz por haver mais fiéis, mas isso não era para se tornar uma ferramenta de disputas políticas", disse ele.