O Cialis é a droga da vez. Talvez você a conheça por outro nome: tadalafila. Está nas farmácias, em letra de música e nas contas de Instagram de uma penca de influenciadores.
De acordo com a associação PróGenéricos, a “tadala” (como é apelidada nas redes sociais) foi o 5º medicamento mais vendido do Brasil em 2024. São mais de 61 milhões de unidades comercializadas do remédio usado para tratar disfunção erétil.
A versão genérica do Cialis sai bem barata: numa pesquisa rápida no Google dá para encontrar farmácias online vendendo uma caixa com 4 comprimidos por menos de R$ 15.
O medicamento é muito semelhante à sildenafila, nome genérico do famoso Viagra. O Dr. Luiz Otávio Torres, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, explicou para a Super que ambos os medicamentos são inibidores da fosfodieterase-5 (PDE5), uma enzima que, por sua vez, inibe a ereção. A tadalafila pode ser usada diariamente ou só no dia da relação sexual.
A tadalafila também pode melhorar a micção (capacidade de urinar), apesar de não ter efeito na próstata. Também pode se receitada, em doses maiores, para casos raros de hipertensão pulmonar. Mas não é só para essas indicações médicas que o remédio está sendo usado.
Apesar de precisar de uma receita para ser adquirida, a tadala parece estar onipresente. Não há indicação para uso recreativo nem para pré-treino de academia, mas a substância tem sido usada para esses fins – especialmente por jovens.
Continua após a publicidadeTem até quem venda bala de ursinho com tadalafila. O youtuber Jon Vlogs anunciou a Metbala, empresa que comercializa o medicamento em forma de gummy depois de um questionário que, de acordo com o site do produto, será analisado por um médico. O médico, por sua vez, vai recomendar o “tratamento mais adequado” para cada caso. A propaganda para o medicamento controlado na versão bala de goma, feita com várias mulheres desacordadas, foi bem criticada nas redes sociais.
Risco físico
Há várias alegações falsas de que o medicamento pode ajudar homens e mulheres a ganhar músculos mais rápido. A ideia é que a tadalafila relaxa o endotélio, camada que reveste a parede interna das artérias, e por consequência ajudaria a levar mais sangue para os músculos, o que poderia ajudar no crescimento deles.
Não existe nenhuma comprovação científica que tadalafila ajude na função muscular. Torres explica que o único estudo sobre o assunto foi pequeno, só com 43 homens, durante um período curto de tempo, e sem nem ter grupo de controle para comparar os resultados.
Continua após a publicidadeTodas as diretrizes mundiais contraindicam o uso de tadalafila para função muscular ou para aumento de performance física
— afirma Torres.
Para além dos marombas, o tadala é comum entre jovens que desejam melhorar o desempenho sexual. A substância, porém, é indicada para casos sérios de disfunção erétil, cuja origem seja tanto orgânica (um problema no pênis, por exemplo) quanto psicológica. Não haverá problemas de saúde caso alguém decida “tomá-lo à toa”, nas palavras de Torres. Mas fica a ressalva de que o remédio não é indicado para uso recreativo
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A única contraindicação, tanto do Viagra quanto do Cialis [tadalafila], é o uso concomitante com medicamentos à base de nitratos
— que pode levar a uma diminuição da pressão arterial. É preciso tomar cuidado com remédios como monocordil, isordil e sustrate, normalmente usados para tratar insuficiência cardíaca e outras questões médicas relacionadas ao coração.
Como qualquer remédio, a tadalafila pode ter efeitos colaterais. O medicamento pode entupir o nariz, deixar o rosto vermelho e causar dor de cabeça e dor muscular. Esses efeitos são, em geral, passageiros e não muito graves, mas quem os sentir não deve tomar a medicação.
Continua após a publicidadeRisco psicológico
Se esse remédio não faz tanto mal, então não há problema em tomá-lo de forma indiscriminada, certo? Errado. “O que pode acontecer quando você usa [a tadalafila] para performance é causar uma dependência psicológica”, explica Torres, “do tipo ‘eu só vou conseguir transar se tomar o remédio'”.
Ana Beatriz Chamati, psicóloga especialista em infância e adolescência, afirma que o uso excessivo do remédio em casos sem necessidade médica pode “camuflar um processo de aprendizagem sobre o envolvimento na relação sexual”.
Em muitos casos, quem está usando esse remédio de forma indiscriminada são jovens com ansiedade em relação ao desempenho sexual. O uso da tadalafila nesses casos sem necessidade orgânica pode atrapalhar o desenvolvimento natural da sexualidade nas primeiras relações, transformando uma insegurança pessoal em uma questão medicamentosa.
O medo profundo de que, se não usar a tadalafila ou outra medicação, tudo vai dar errado, é por si só um “estado emocional desfavorável à ereção”, segundo Chamati. Se o medicamento está sendo usado para resolver uma situação de ansiedade, a pessoa vai acreditar “que só consegue se envolver sexualmente com o medicamento […] e então pode ocorrer a dependência do medicamento como efeito colateral”.
Continua após a publicidadeIsso se intensifica quando não há vinculo amoroso nem um parceiro sexual fixo para desenvolver essa aprendizagem com segurança
— explica Chamati. “A construção de uma relação amorosa pode ser um ambiente para estabelecer confiança, trazendo mais leveza caso a ereção não ocorra, mesmo porque a ereção é uma parte da relação sexual, e não a relação sexual em si.”
Para superar uma insegurança como essa, a solução não é gummy de tadala. “Só caminhamos para a aprendizagem quando nos colocamos vulneráveis nas relações e somos expostos às situações de frustração e angústia, o que é normal no desenvolvimento humano”, afirma Chamati. Numa sociedade que evita a todo custo as falhas, o desconforto emocional e a vulnerabilidade, quem sai perdendo é a vida sexual saudável.
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