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Esses ratinhos de uniforme podem ser a solução pa...

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 03/11/2024 às 10:00 · Atualizado há 6 dias
Esses ratinhos de uniforme podem ser a solução pa...
Foto: Reprodução / Arquivo

Crimes contra a vida selvagem formam um mercado enorme e bilionário, semelhante ao trafico de drogas e de armas. Diversas espécies são vítimas dessa ilegalidade – alguns exemplos famosos incluem marfim de elefantes, chifres de rinocerontes e pele de tigres. O problema, no entanto, é ainda maior e pode envolver desde tartarugas marinhas até madeira de árvores.  

O ato é conhecido como caça furtiva: quando grupos criminosos matam animais em busca de grandes lucros no mercado negro. Em 1973, dezenas de países assinaram a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestre Ameaçadas de Extinção (CITES), visando regular o comércio internacional de espécies ameaçadas para protegê-las da extinção. Mesmo assim, o contrabando ainda é uma realidade constante. 

Mas há luz no fim do túnel: os ratos. Esses animais improváveis estão sendo treinados por cientistas, para farejar farejar chifres de rinoceronte, escamas de pangolim, presas de elefante, madeira negra africana e vários outros materiais transportados ilegalmente.

Usar animais para identificar tráfico não é algo novo. Há muito tempo, cães são utilizados em aeroportos para sentir o cheiro de explosivos, drogas ilegais, dinheiro, sangue e produtos eletrônicos, como telefones celulares ilícitos por exemplo. Eles também trabalham no ramo da identificação do tráfico selvagem.

O único problema é que os caçadores furtivos e traficantes estão cada vez mais criativos: pintam marfim de elefantes de preto, envolvem materiais em chocolate, misturam escamas de pangolim em caixas com castanhas, criam compartimentos falsos em seus containers ou escondem materiais em café. O item contrabandeado acaba misturado com materiais de cheiros muito fortes, com o objetivo de confundir os cães. 

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É aí que entram os ratos. A espécie escolhida para o trabalho são os ratos-gigante-africano (Cricetomys ansorgei), os maiores no mundo das ratazanas, podendo chegar aos seus 90 cm do nariz à cauda – bem maior que um cão pincher ou um yorkshire. Estes animais são naturais da África sub-Saariana e possuem um currículo excepcional, com as qualidades necessárias para o trabalho: um olfato excelente e facilidade de aprender. 

Essa mesma espécie ficou famosa em 2013, quando foi treinado para identificar minas terrestres, já que conseguiam sentir o cheiro de TNT. Outras experiências prévias incluem a detecção de tuberculose e a busca por sobreviventes de terremotos. Agora, o mesmo nariz apurado desses animais pode ter uma nova função.

Publicado no Frontiers in Conservation Science, um novo estudo usou 11 ratos – uniformizados, claro, pois são profissionais – para buscar elementos que viriam a ser traficados. 

A equipe treinou os roedores a inserir o focinho em um buraco, para serem expostos a amostras de cheiro, se embasando na técnica de recompensa: toda vez que acertavam a tarefa, ganhavam um petisco. Após dominarem essa habilidade, os pesquisadores apresentaram aos ratos quatro itens comumente contrabandeados junto com odores usados para mascarar esses produtos. 

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Oito ratos completaram o treinamento e aprenderam a diferenciar entre os quatro odores-alvo e 146 outros odores. Testes realizados cinco e oito meses depois mostraram que os ratos ainda lembravam dos cheiros. Além de identificar os itens contrabandeados, eles também aprenderam a alertar seus tratadores puxando uma bolinha conectada a um colete especial, que ativa um sinal sonoro, um traje vermelho típico de um funcionário do setor de fiscalização.

(APOPO/Reprodução)

Após dominar o comportamento de detecção de contrabando em laboratório, os ratos farejadores foram testados no porto de Dar es Salaam, na Tanzânia, onde conseguiram identificar mais de 83% dos alvos plantados, mesmo com outros odores presentes.

Caso os ratões sejam efetivados em grande escala, eles seriam um grande passo para a solução de alguns problemas globais.

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O comércio ilegal de vida selvagem é avaliado entre 7 bilhões e 23 bilhões de dólares por ano, segundo um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e da Interpol. É a quarta maior indústria de comércio ilegal, só atrás de narcóticos, tráfico humano e produtos falsificados.

Crawford Allan, vice-presidente de crimes naturais e defesa de políticas do WWF, destaca em depoimento à CNN que a vida selvagem é vista como uma mercadoria de baixo risco, e o crime organizado explora as falhas nos métodos de detecção em portos e aeroportos, especialmente na África.

Além disso, o sucesso dos ratos seria um avanço importante na preservação da biodiversidade. Isso porque a captura e a morte de animais compromete a reprodução das espécies, levando à extinção de populações inteiras.

A caça furtiva também interfere nas funções ecológicas, já que muitas espécies são essenciais para a dispersão de sementes. A extinção dessas vidas vegetais, por sua vez, desequilibra ecossistemas inteiros. A destruição de florestas tropicais, que são cruciais para a produção de oxigênio e absorção de CO2, também tem sérias consequências para o clima global a longo prazo.

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O Brasil não sai atrás no contrabando. Neste ano, um navio cargueiro que partiu daquilo encalhou em Togo – e lá foram encontradas araras-azuis e micos-leão-dourados à bordo (ilegalmente).

Não existem dados consolidados sobre o tráfico internacional de animais no Brasil, mas um levantamento da ONG Freeland calcula que mais de 140 mil animais e quase 900 ovos foram apreendidos no país entre 2018 e 2022, com base em notícias.

A América Latina como um todo é vulnerável ao tráfico de vida selvagem devido à sua rica biodiversidade. Embora seja difícil obter dados precisos sobre o comércio ilegal de animais e plantas, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais estima que pelo menos 12 milhões de animais selvagens sejam caçados anualmente no Brasil.

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A inserção dos ratos no mercado de trabalho não substituiria completamente os cães farejadores, e sim complementaria o serviço, já que os roedores são menores e mais ágeis para explorar espaços reduzidos. Eles também são mais baratos para transporte e manutenção, rápidos e fáceis de treinar, além de viverem até 11 anos, oferecendo um bom retorno sobre o investimento. 

Esses fatores são especialmente importantes pois os contrabandistas frequentemente operam em países mais pobres. A coautora do estudo, Isabelle Szott, destaca a necessidade urgente de aumentar a triagem de cargas, e os ratos da APOPO se mostram ferramentas de detecção de odores eficientes e acessíveis.

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