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Em audiência pública na Comissão de Agricultura do Senado, realizada na terça-feira (27), o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, garantiu que o foco de gripe aviária registrado em uma granja comercial no município de Montenegro (RS) está completamente contido. A rápida resposta do governo, segundo o ministro, demonstrou a eficiência do sistema sanitário brasileiro e reforçou a confiança internacional na segurança da produção avícola nacional.
Segundo Fávaro, todas as medidas previstas no Plano de Contingência foram adotadas imediatamente após a confirmação do vírus da influenza aviária de alta patogenicidade (IAAP) na granja comercial. Entre as ações, destacou-se a instalação de sete barreiras sanitárias e a desinfecção completa do local afetado, que entrou agora em um período de vazio sanitário de 28 dias, após o qual o Brasil poderá se autodeclarar livre da doença na região.
“Estamos no quinto dia útil após a desinfecção da granja e já se passaram 15 dias sem novos casos. Isso comprova que nosso sistema funciona. Se houvesse disseminação, já teríamos novos registros de mortalidade”, afirmou o ministro.
Gripe aviária: Exportações impactadas, mas consumo é “seguro”
Mesmo com a contenção do foco de gripe aviária, alguns impactos foram inevitáveis. Dos 160 países que importam carne de frango brasileira, 24 impuseram restrições temporárias – medidas previstas em protocolos internacionais. Outros 13 limitaram as importações especificamente do Rio Grande do Sul ou do município de Montenegro.
Fávaro destacou, no entanto, que cerca de 120 mercados seguem abertos ao frango brasileiro, e que 70% da produção nacional é absorvida pelo mercado interno. “Claro que haverá impacto, mas nada alarmante. Nossa expectativa é retomar rapidamente o comércio com os países que impuseram restrições assim que confirmarmos a erradicação do foco”, afirmou.
Em meio a dúvidas da população, Fávaro foi enfático ao afirmar que o consumo de carne de frango e ovos segue seguro. “O cozimento elimina completamente o vírus. As restrições à exportação visam impedir a proliferação da doença em granjas, e não riscos ao consumidor”, explicou.
Apesar de lamentar o surgimento do foco da doença, o ministro ressaltou que o vírus da gripe aviária circula no mundo há três décadas e, inevitavelmente, poderia atingir o Brasil por meio de aves migratórias. Ainda assim, o país segue como o único grande exportador mundial a manter seu plantel comercial livre do vírus por quase duas décadas.
Fundo sanitário
Durante a audiência, o ministro também defendeu a aprovação de dois projetos de lei em regime de urgência que visam fortalecer o sistema sanitário brasileiro. Um deles propõe a criação de um Fundo Sanitário Nacional, que permitirá indenizar produtores afetados por crises sanitárias. O outro prevê a contribuição do setor privado para custear horas extras de auditores fiscais federais agropecuários.
Fávaro ainda anunciou a nomeação de 440 novos servidores aprovados no Concurso Público Nacional Unificado, sendo 200 auditores fiscais agropecuários e 240 agentes e técnicos ligados à inspeção sanitária. Esses profissionais já estão em processo de capacitação e devem reforçar o Sistema Nacional de Segurança Sanitária. “Há previsão de ampliar esse número em até 75%, o que pode representar quase mil novos profissionais atuando na defesa agropecuária”, disse.
Por que o frango brasileiro é importante para o mundo
A detecção do primeiro caso de gripe aviária no Brasil expôs uma vulnerabilidade crítica do mercado global: a forte dependência do frango brasileiro. O país é responsável por mais de um terço das exportações mundiais da proteína, o que significa que, em média, um em cada três pedaços de frango comercializados no planeta vem de granjas brasileiras.
A escassez de alternativas é um dos fatores que tornam o frango brasileiro tão estratégico. Os Estados Unidos, principal concorrente, enfrentam seus próprios surtos de gripe aviária e uma queda na fertilidade de ovos, o que deve limitar suas exportações ao menor nível desde 2015, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês). Já países europeus têm produção insuficiente para cobrir a demanda global, e custos significativamente mais altos.
Na Ásia, a pressão já é sentida: cortes como peito, asas e pés de frango registram alta nos preços. Coreia do Sul e Filipinas correm para buscar novos fornecedores e liberar estoques locais, mas reconhecem que nenhum país tem a escala, a logística e a confiabilidade sanitária que o Brasil construiu ao longo de décadas.