Por Lucas Rocha
A retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris foi uma das primeiras medidas anunciadas por Donald Trump após tomar posse pela segunda vez como presidente. A decisão, que vai na contramão dos esforços globais para enfrentar a emergência climática, reforça a retórica negacionista e pode atrapalhar as negociações da COP 30, que acontece em Belém, em novembro.
Para a cientista política Marília Closs, coordenadora de projetos da Plataforma Cipó e pesquisadora do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), a decisão de Trump não surpreende, mas desenha “um cenário bastante desolador” no enfrentamento à crise climática.
Não pega ninguém de surpresa a saída de Trump do acordo de Paris. No primeiro governo, ele já tinha feito isso, então já se esperava. O negacionismo climático, inclusive, foi uma das plataformas de campanha dele. Aliás, não só o negacionismo climático, mas tudo ao redor do desmonte da governança internacional, do sistema multilateral
— afirmou Closs em entrevista ao ICL Notícias.
Todos já estávamos esperando que acontecesse, mas, ao mesmo tempo, esse anúncio é especialmente dramático porque acontece, justamente, às vésperas da COP30, que não é uma COP qualquer. Esta é a conferência da revisão das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs)
— apontou.
As NDCs são as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa assumidas por cada país e tem como objetivo limitar a 1,5°C (no cenário ideal) e 2ºC (no máximo) o aumento da temperatura média global, comparada com os níveis pré-industriais. Em 2024, o planeta superou a marca 1,5ºC pela primeira vez.
Para Closs, caso os EUA não atualizem suas metas na COP30, é possível cravar a falência do sistema.
Esse modelo de NDCs, com certeza, é o arranjo em termos de mitigação mais importante que a gente tem. É muito grave ver o maior emissor histórico de gases de efeito estufa dizer que não vai atualizar suas metas. Na prática, é quase o estabelecimento da falência do sistema
Sem os EUA, a gente não tem como garantir o que está previsto em Paris, que o aumento da temperatura média global fique abaixo de 2ºC e, preferencialmente, abaixo de 1,5ºC. Não tem como fazer isso sem os comprometimentos por parte dos Estados Unidos. É um cenário muito difícil, bastante desolador
— reforça a pesquisadora.
Além da retirada dos EUA do acordo, Trump anunciou que vai encerrar o plano do New Deal Verde. O programa, criado no governo Joe Biden, previa uma transição energética gradual com o objetivo de reduzir a alta dependência de combustíveis fósseis no país.